domingo, 10 de dezembro de 2017

MANUEL BANDEIRA

A estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.


LUIZ CARLOS MACIEL

Dramaturgo, roteirista, diretor, escritor, jornalista: Luiz Carlos Maciel morre aos 79 anos




Por  Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo


RIO - “Jornalista, dramaturgo, roteirista de cinema, filósofo, poeta e escritor. Apesar de sua vasta atuação no cenário cultural brasileiro, Luiz Carlos Maciel é comumente lembrado por sua participação n'O Pasquim, com a coluna Underground, quando então escrevia artigos sobre os movimentos alternativos que eclodiam no mundo, assim como as manifestações anteriores que lhes serviram de base, como o romantismo, o surrealismo, o existencialismo sartreano, a literatura da Beat Generation, o marxismo, entre muitos horizontes (re)descobertos na época. Este trabalho de difusão da contracultura lhe valeu o estereótipo de ‘guru da contracultura brasileira’ ”.

Foi desta forma que a historiadora Patrícia Marcondes de Barros descreveu Maciel, que morreu na manhã deste sábado, aos 79 anos, em decorrência de falência múltipla de órgãos. Ele estava internado desde o último dia 26 no Hospital Copa D’Or, em Copacabana, na Zona Sul, vítima de uma doença pulmonar obstrutiva crônica.

A historiadora, autora do livro “A contracultura na América do Sol: Luiz Carlos Maciel e a coluna Underground”, organizou também uma cronologia da vida do jornalista e dramaturgo.

Luiz Carlos Ferreira Maciel nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 15 de março de 1938. Aos 17 anos, ingressou na Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul, onde se formou bacharel em 1958. Ainda em Porto Alegre, fez teatro amador, atuando em peças de Pirandello e Tennesse Williams. Ele também dirigiu Os Cegos, de Michel de Ghelderode e Esperando Godot, de Samuel Beckett.

Um ano após sua formatura em filosofia, Maciel ganhou uma bolsa para estudar na Escola de Teatro da Universidade da Bahia. Em Salvador, conheceu Glauber Rocha, João Ubaldo Ribeiro e Caetano Veloso, entre vários outros artistas. Com Glauber, fez seu primeiro papel como ator principal no curta-metragem “A cruz na praça”. Em 1960, Maciel ganhou outra bolsa de estudos, desta vez da Fundação Rockefeller, para estudar direção teatral e roteiro no Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, nos EUA.

Em 1961, Maciel voltou a Salvador já como professor da Escola de Teatro. Neste período, dirigiu peças como “A morte de Bessie Smith”, de Edward Albee, “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, e “Major Bárbara”, de Bernard Shaw. Neste mesmo ano, publicou seu primeiro livro (de um total de 12), um ensaio sobre Samuel Beckett e a solidão humana. Em 1964, ano do golpe militar, mudou-se para o Rio de Janeiro onde deu aulas de teatro e começou a trabalhar como redator nas redações da revista Fatos & Fotos e no Caderno B, do Jornal do Brasil. Neste período, Maciel escreveu dois roteiros para o cinema: Society em Baby Doll, que também dirigiu, e “O homem que comprou o mundo”, de Eduardo Coutinho.

Luiz Carlos Maciel foi um dos fundadores do Pasquim, em 1968, onde era responsável pela edição de duas páginas dedicadas ao Underground – o que acabou lhe rendendo o apelido de “guru da contracultura”. Em 1970, junto com a maior parte da equipe do Pasquim, foi preso pelo regime militar e passou dois meses encarcerado. Nos anos seguintes, ele editou o semanário de contracultura “A flor do mal” e a edição brasileira da revista Rolling Stone. O multifacetado Maciel ainda dirigiria espetáculos musicais de artistas como Gal Costa e Erasmo Carlos e se tornaria professor de roteiro.

Durante vinte anos, trabalhou como roteirista da Rede Globo. Em 2003, Maciel publicou um livro reunindo seus conhecimentos na área, O poder do clímax — Fundamentos do roteiro de cinema e TV, relançado este ano. Em 2015, aos 77 anos, apesar dos múltiplos talentos, se viu desempregado pela primeira vez.

“Um tanto constrangido, é verdade, mas sem outro jeito, aproveito esse meio de comunicação, típico da era contemporânea e de suas maravilhas, para levar ao conhecimento público o fato desagradável de que estou sem trabalho e, por conseguinte, sem dinheiro", escreveu ele em sua página no Facebook.

Este ano, as coisas tinham melhorado. Maciel relançou em março O poder do clímax – fundamentos do roteiro de cinema e TV, lançado originalmente em 2003, e voltou a trabalhar na TV Globo. Ele foi consultor da supersérie “Os dias eram assim”, cuja trama se passa entre os anos 70 e 80.

Luiz Carlos Maciel deixou a mulher, a atriz Maria Cláudia, com quem era casado desde 1976, dois filhos, Lucia Maria e Roberto, e quatro netos.



ESTADÃO/CULTURA
http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,morre-aos-79-anos-o-escritor-e-jornalista-gaucho-luiz-carlos-maciel,70002114373



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

JIMI HENDRIX

Sunshine Of Your Love
Stockholm, Sweden, 1969

FABRÍCIO CARPINEJAR


LIMPANDO MANCHAS COM A SALIVA


Eu fiz aquilo que sempre odiei.

Notei uma mancha de pasta de dente no casaco do abrigo de meu filho antes da saída para a escola e tentei limpar com a saliva. Foi um gesto impensado, passional, visceral. Quando vi, já raspava a unha no tecido. Havia desaparecido o pedágio do pudor dos pensamentos e segui com os braços em alta velocidade.

— Que é isso, pai?

Ele me censurou e, então, caí em mim. Acordei do transe paterno, do coma do instinto que atinge os bichos com as suas crias. Resmunguei uma desculpa, mas ainda estava, mesmo errado, me sentindo convicto do meu ato. Veio a confusão de lembranças: ser pai é voltar a ser filho.

Lembrei que a mãe tinha a mania de tirar alguma mancha do meu uniforme escolar umedecendo o dedo em sua boca. Assim como ela virava as páginas das revistas nas salas de espera dos consultórios. Achava nojento. Preferia ir para a aula sujo a ir com o casaco cuspido. Não me faziam mal manchas de café ou do Nescau, justificáveis, eu me incomodava com a esfregação improvisada. Jamais sonhei que estaria no outro lado do balcão da alma, realizando o que abominava. Jamais imaginava que, de vítima, viraria protetor.

Mas a vida propõe a mudança generosa de lugares. Eu só não queria o meu filho entrando na sala deselegante. Ele pairava acima dos meus nojos e preconceitos. Não teria mesmo como me controlar. A educação supera condicionamentos e medos e somos mais do que a nossa mera identidade.

Não sofro com a fama de chato que possa receber por minhas tempestuosas manias.

Uma hora ou outra, o feitiço atingirá o feiticeiro. O que mais odiamos, com o tempo, será o que mais amaremos. Eu amo o que odiava. Amo fazer coisas de meus pais que odiava neles. Amo ser hoje os meus pais. Com os hábitos invasivos de mexer no cabelo dos filhos de repente, para ajeitar o penteado, ou de me agachar do nada para arrumar as bainhas das calças presas nas meias. E apanhando até terminar as tarefas: eles estapeiam as minhas mãos quando sou frenético pente ou começam a caminhar quando sou imóvel engraxate. A resistência deles com "para, pai" ou "não precisa disso" aumenta a minha ternura. Experimento cenas patéticas e ridículas publicamente.

Surgem relâmpagos de cuidados que não sei frear. Riscam o céu de minhas veias.

O clarão impulsiona o corpo e ele simplesmente obedece. A impressão é de que morreria se não fizesse. Chamava a minha mãe de dramática e agora divido o palco com ela na ópera do cotidiano.

Talvez o zelo morasse em mim desde pequeno, esperando a paternidade para aflorar.


*Publicado em Jornal Zero Hora em 29/08/17


FABRÍCIO CARPINEJAR


Escritor, jornalista e professor universitário, autor de trinta e quatro livros, pai de dois filhos, um ouvinte declarado da chuva, um leitor apaixonado do sol. Quando conseguir se definir deixará de ser poeta.






domingo, 3 de dezembro de 2017

IMPRESSIONISTAS



Camille Pissarro / Boulevard Montmartre



Claude Monet / Landscape The Parc Monceau



Vincent van Gogh / Le Café De Nuit



Pierre-Auguste Renoir / Luncheon of the Boating Party

ANA CRISTINA CESAR


Fagulha


Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.


*Ana Cristina Cesar, em “A teus pés”. São Paulo: Brasiliense, 1982.




sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O INQUILINO

The tenant, 1976
Paramount Pictures, 126min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach, romance de Roland Topor. Fotografia: Sven Kykvist. Montagem: Françoise Bonnot. Música: Philippe Sarde. Figurino: Jacques Schmidt. Direção de arte/cenários: Pierre Guffroy. Produção executiva: Hercules Bellville. Produção: Andrew Braunsberg. Elenco: Roman Polanski, Isabelle AdjanShelley Winters, Melvyn Douglas, Jo Van Fleet, Bernard Fresson, Lila Kedrova. Estreia: 24/5/76 (Festival de Cannes)
Último capítulo da famosa "trilogia do apartamento" de Roman Polanski, "O inquilino" antecede, em pelo menos uma década, o tom onírico e delirante das obras de David Lynch. Inspirado em um romance de Roland Topor que estava em vias de ser filmado por Jack Clayton ("Os inocentes" e "Todas as noites às nove") e lançado dois anos após a consagração do cineasta polonês com "Chinatown", que havia lhe dado uma indicação ao Oscar de melhor diretor, o suspense estrelado pelo próprio Polanski e pela musa francesa Isabelle Adjani na flor de seus 20 anos de idade, "O inquilino" é, ainda hoje, perturbador a ponto de dar um nó na cabeça do espectador, acostumado com as tramas mastigadinhas proporcionadas por Hollywood - é uma surpresa, aliás, saber que foi produzido por um estúdio americano e que tenha chegado às telas sem sua interferência. Sinal de que o prestígio do diretor por seu noir estrelado por Jack Nicholson e Faye Dunaway ainda estava em alta - o que só seria abalado por sua acusação de estupro de uma menor de idade e sua proibição de voltar a trabalhar nos EUA, o que lhe obrigou a manter uma carreira internacional, ainda que premiada e quase sempre louvada pela crítica.

Tema constante na filmografia de Polanski, a perda da sanidade mental é o mote central de "O inquilino", em que o diretor volta a trabalhar como ator. Ele é quem vive o protagonista, Trelkovski, um funcionário público simples e discreto que vê seu equilíbrio posto à prova depois de alugar o apartamento de uma jovem estudante que acaba de cometer suicídio. Constantemente assediado por seus estranhos vizinhos, que reclamam de barulhos que ele não faz e falam de outros moradores que ele sequer consegue ver, aos poucos o tímido burocrata passa também a ter visões estranhas e comportar-se de forma errática, como se assumisse a personalidade da antiga moradora do apartamento, uma egiptologista a quem visitou no hospital pouco antes de sua morte. Sem saber o que fazer para impedir que seu fim seja semelhante ao dela - cujos hábitos de consumo ele também começa a manter - Trelkovski pede ajuda a uma amiga da morta, Stella (Isabelle Adjani). Não demora muito, porém, para que ele veja nela uma outra ameaça à sua vida. Sem saber o que fazer, ele mergulha em uma espiral de loucura e obsessão.

O mais radical dos trabalhos de Roman Polanski - por sua profusão de simbolismos, seu tom delirante e por seu final em aberto que não explica nada e deixa tudo nas mãos da plateia - "O inquilino" estreou mundialmente no Festival de Cannes de 1976, de onde saiu sem nenhum prêmio mas com fartos elogios da crítica. Não é para menos: com um estilo econômico de narrativa, sem excessos ou artifícios que façam dele um suspense vulgar ou tipicamente comercial, seu filme é um soco no estômago de quem procura um thriller convencional. Não há sustos a cada dez minutos ou um desfecho trivial. O roteiro - co-escrito pelo diretor e seu colaborador habitual Gérard Brach - tem seu ritmo próprio, com uma pegada europeia que exige do espectador uma atenção que o gênero normalmente dispensa em seus exemplares mais banais. Até mesmo quando a trama ameaça escorregar com um grau bastante elevado de situações bizarras o controle de Polanski no comando da ação a impede de cair no ridículo. Poucas vezes investindo na carreira de ator, ele também consegue destacar-se com uma interpretação contida e adequada, trabalhando ao lado de vencedores do Oscar, como Melvyn Douglas, Shelley Winters, Lila Kedrova e Jo Van Fleet - todos perfeitamente inseridos na atmosfera de pesadelo criada por sua direção inspirada.

Que não se espere de "O inquilino" um suspense banal. Apostando fortemente no teor psicológico da trama e amparado em uma direção de arte que enfatiza cada ângulo distorcido e cada nota da bela trilha sonora de Philippe Sarde, o filme de Polanski conduz o espectador por um labirinto de emoções perversas e tensão, com um sentimento de incômodo de que somente os grandes cineastas conseguem imprimir em seus trabalhos. O final pode não agradar a todos, mas é inegável que poucos filmes são capazes de despertar tanto desconforto sem apelar para a sanguinolência explícita ou efeitos visuais de última geração. Polanski é sempre Polanski, para o bem e para o mal. Vale experimentar!