terça-feira, 22 de agosto de 2017

EDGAR ALLAN POE



Desde a infância eu tenho sido
Diferente d’outros – tenho visto
D’outro modo – minhas paixões
Tinham uma outra fonte e
Minhas mágoas outra origem -
No mesmo tom não despertava
O meu coração para a alegria -
O que amei – eu amei só.
Então – na infância – a aurora
Da vida atormentada – estava
Em cada nicho de bem e mal
O mistério que me prendia -
Da correnteza, da fonte -
Da escarpas rubras do monte -
Do sol que me rodeava
Em pleno outono dourado -
Do relâmpago nos céus
Quando sobre mim passava -
Do trovão, da tormenta -
E a nuvem tem a forma
(Quando o resto do céu é azul)
D’um demônio aos meus olhos
.


domingo, 20 de agosto de 2017

JERRY LEWIS

Joseph Levitch 
Newark, 16 de março de 1926 - Las Vegas, 20 de agosto de 2017





sábado, 19 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

ÁLVARO DE MOYA

O homem que sabia tudo de gibis

Foto: Monalisa Lins/Estadão
por Célio Heitor Guimarães


Álvaro de Moya era louco por gibis e um obstinado cultor da arte quadrinizada. Oficialmente, era jornalista, professor de comunicação da USP, escritor, conferencista, diretor e produtor de televisão e cinema. Mas os quadrinhos eram o seu mundo. Foi um dos organizadores da 1ª Exposição Internacional de Quadrinhos, realizada no Brasil, em São Paulo, em 1951, e chefiou praticamente todas as delegações brasileiras nos congressos de comics na Itália, desde 1966.

Além disso, foi o pioneiro no estudo dos quadrinhos entre nós como manifestação de cultura popular, tendo coordenado a edição e escrito, juntamente com outros dez aficionados, o primeiro livro sobre o tema publicado no país: “Shazam!” (Editora Perspectiva, São Paulo, 1970).

Desde então, Álvaro de Moya manteve-se sempre ocupado com os gibis. Produziu centenas de artigos para publicações nacionais e estrangeiras, proferiu outro tanto de palestras em universidades daqui e lá de fora, foi consultor da World Encyclopedia of Comics and World Enciclopedia of Cartoons e escreveu alguns dos mais importantes livros sobre histórias em quadrinhos, referências obrigatórias para os quadrinhólogos e escolas de comunicação social: “História das Histórias em Quadrinhos” (1993), “O Mundo de Disney” (1996), “Anos 50/50 Anos” (2001), “Literatura em Quadrinhos no Brasil” (2002), “Vapt-Vupt” (2003), “A Reinvenção dos Quadrinhos” (2012). Este ano, para comemorar os 70 anos de carreira e a sua estreita amizade com o mestre Will Eisner, deveria lançar, nos próximos dias, pela Editora Criativo, “Eisner / Moya – Memórias de Dois Grandes Nomes da Arte Sequencial”.

Aliás, esta foi a grande vantagem de Moya sobre todos nós, os loucos por gibis: além de ser uma autêntica enciclopédia, ele foi amigo pessoal de Will Eisner, o grande gênio, criador de The Spirit e de um sem número de notáveis novelas gráficas. Confessaria: “Foi através dele [Eisner] que percebi o fato de que a essência das minhas histórias, minha visão sobre a condição humana, era aparentemente compreendida na íntegra e podia transcender a barreira linguística”.

Ao receber a edição de “Anos 50/50 Anos”, Will agradeceu ao autor: “Os quadrinhos, a narrativa visual, com o emprego da arte sequencial e texto, estão afinal no limiar de chegarem ao lugar merecido na cultura ocidental. Este livro de sua autoria que é um reconhecido historiador, muito fará para acelerar esse processo”.

O mundo dos quadrinhos entrou na vida de Álvaro de Moya antes mesmo que ele aprendesse a ler, conforme revelaria: “Meu irmão mais velho comprava o Suplemento Juvenil e aqueles álbuns grandes de histórias em quadrinhos. Enquanto ele ia à escola, eu entrava escondido no seu quarto e ficava só vendo aquelas histórias incríveis! Gostava principalmente do Flash Gordon de Alex Raymond. Fiquei vidrado naquilo e decidi ser desenhista. Inicialmente, eu copiava os desenhos de Raymond. Depois, fui apresentado ao João Gitahy, um cara que desenhava qualquer coisa, um monstro. Ele me ensinou a passar tinta nas artes”.

Num tempo em que pais, professores e psicólogos afirmavam que os quadrinhos eram prejudiciais à formação das crianças, de Moya foi à luta e, bravamente, mostrou que estavam todos errados. E que as combatidas revistinhas eram apenas um tipo inocente de manifestação artística, que não só divertiam a garotada como eram capazes de educá-las.

Como desenhista, Álvaro de Moya fez “Zumbi”, colaborou com a versão de “Macbeth” de Shakespeare e quadrinizou “A Marcha”, de Afonso Schimidt. Em 1952, tornou-se desenhista-fantasma de Walt Disney, na Editora Abril, produzindo, sobretudo, capas para as revistinhas disneyanas.

Como jornalista, atuou no Jornal da Tarde, em O Estado de S.Paulo e na Folha de S.Paulo. Na TV, após um estágio na americana CBS, dirigiu a TV Excelsior e inaugurou a TV Bandeirantes, também como diretor.

Foi esse extraordinário difusor da arte quadrinizada, à qual se dedicou, com garra, amor e carinho, por mais de 50 anos, que o Brasil perdeu na última segunda-feira. De Moya faleceu aos 87 anos de idade, na capital paulista, onde nasceu em 1930, vítima de um AVC. Em 2013, perdera a mulher, a roteirista Cláudia Lévay, com quem foi casado por trinta anos. Deixou dois filhos, Sérgio e Silvia.


P.S.Álvaro de Moya é um dos personagens do livro que comecei a escrever, diagramar e montar em 2003 – HQ, A Arte que está nos Gibis – e que certamente jamais será publicado.


FONTE
BLOG DO ZÉ BETOhttp://www.zebeto.com.br/

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

HEDWIG: ROCK, AMOR E TRAIÇÃO



Hedwig and the Angry Inch / 2001, New Line Cinema, 95min. 
Direção: John Cameron Mitchell. Roteiro: John Cameron Mitchell, romance de John Cameron Mitchell, Stephen Trask. Fotografia: Frank G. DeMarco. Montagem: Andrew Marcus. Música: Stephen Trask. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Therese DePrez/Liesl Deslauriers. Produção executiva: Michael De Luca, Amy Henkels, Mark Tusk. Produção: Pamela Koffler, Katie Roumel, Christine Vachon. Elenco: John Cameron Mitchell, Michael Pitt, Miriam Shor, Stephen Trask, Theodore Liscinski, Alberta Watson, Maurice Dean Wint. Estreia: 19/01/01 (Festival de Sundance)

Energético, criativo, ousado. É difícil não chegar ao final de uma sessão de "Hedwig: rock, amor e confusão" - um subtítulo desnecessário e bobo, diga-se de passagem - sem que esses três adjetivos não estejam saltitando na mente do espectador. Uma mistura anárquica e debochada de comédia, drama e musical com fortes cores homossexuais, o filme de estreia de John Cameron Mitchell é também uma tour de force que revelou no diretor então iniciante uma capacidade ímpar de surpreender em vários campos de seu ofício: além de comandar o espetáculo e ter escrito o roteiro (adaptado de uma peça teatral de sua autoria), Mitchell também reservou para si o papel principal da produção, em uma decisão ao mesmo tempo corajosa (o mercado para filmes de temática gay nunca foi exatamente grande em Hollywood ou no mundo, especialmente quando eles não tem um grande astro como chamariz) e acertada (sem um grande nome na liderança do elenco, a liberdade criativa estava assegurada). O resultado veio na aclamação da crítica, na profusão de prêmios e homenagens de diversos festivais internacionais e em uma merecida indicação ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical. Melhor que tudo isso, porém, foi a aceitação popular: em pouco tempo, "Hedwig" tornou-se cult por excelência e credenciou seu criador a partir para experiências ainda mais radicais ("Shortbus", de 2006) ou comportadas ("Reencontrando a felicidade", de 2010, que deu à Nicole Kidman uma indicação ao Oscar de melhor atriz).
Nascido no palcos - onde marcou presença desde 1998, quando mesmo sendo uma produção off-Broadway saiu da temporada com prêmios bastante importantes do teatro norte-americano - e muito bem-recebido no cinema, Hedwig é um personagem dos mais exóticos e encontrou em seu criador o intérprete perfeito. Sem medo do ridículo ou do exagero de determinadas situações, Mitchell encarna com segurança e determinação tanto o drama quanto a comédia que existem na trajetória do protagonista, conduzindo a narrativa com um misto de gêneros que, em mãos menos capazes, poderia facilmente tornar-se dispersivo. Inserindo números musicais na narração da trajetória de Hedwig desde sua infância até a vida adulta e ilustrando-os com animações criativas e irreverentes, o cineasta/roteirista convida a plateia a mergulhar em um universo à parte, recheado de personagens excêntricos e/ou idiossincráticos e sequências que, a despeito da seriedade de seu conteúdo, nunca ultrapassam o tom de sarcasmo e ironia. 
No final das contas, a leveza de "Hedwig" acaba por ser seu maior trunfo.
Logo na primeira cena a plateia já é apresentada a tudo que virá pela frente: com um figurino inspirado no glam rock dos anos 70, Hedwig é a vocalista de uma banda que tenta lutar contra a indiferença de uma audiência formada pelos frequentadores ocasionais de um restaurante. É pouco para seu talento, principalmente quando ela começa a contar sua trajetória até ali e se descobre que ela é a responsável pelo sucesso de Tommy Gnosis (Michael Pitt), um ídolo pop de fama internacional que só está no topo do sucesso graças às músicas que ela compôs quando ambos estavam juntos. Recheando sua narrativa com sarcasmo e deboche, Hedwig viaja à Alemanha de infância um tanto traumática, à juventude de descobertas sexuais (e um bizarro casamento com um militar, que resultou em uma cirurgia de sexo incompleta que lhe inspirou a batizar seu grupo musical de "Angry Inch" - a polegada irada) e suas desventuras amorosas e artísticas. Recusando-se terminantemente a apelar para qualquer espécie de sentimentalismo ou autopiedade, Hedwig frequentemente ri da própria desgraça e disfarça sua dor com canções que vão da melancolia à mais pura gozação. Com uma performance vocal arrebatadora somada a seus méritos como ator, Mitchell constrói um personagem-título inspiradíssimo, que desperta no público um misto de compaixão e admiração, mesmo que em determinados momentos sua garra em mostrar-se forte e resiliente impeça o espectador de conectar-se emocionalmente a ele. É somente quando sua máscara de altivez desaparece e um ser humano surge sob ela que o filme se torna mais fascinante e palpável. Uma pena que isso ocorra tão raramente.
"Hedwig: rock, amor e traição" é um filme de concepção anárquica e sagaz, quase uma desconstrução dos musicais típicos de Hollywood. É muito mais "Velvet goldmine" (98), de Todd Haynes, do que qualquer produção com Fred Astaire ou Judy Garland. É devasso, ousado, quase ultrajante em seu modo de ver e transmitir temas delicados, mas paradoxalmente é dono de uma pureza quase comovente. É como se John Cameron Mitchell fizesse de seu protagonista um anti-herói dotado de uma ingenuidade maleável, que se adequa através da ironia a um mundo de decepções e libertinagem. Não tenta arrancar compaixão do público, quer apenas fazê-lo rir e divertir-se por uma hora e meia de boa música e transgressão. É bem-sucedido em boa parte do tempo - é impossível não admirar-se com a variedade de talentos de seu criador - mas corre o risco de aborrecer àqueles que, de certa forma, não pertencem a seu público-alvo. Os mais conservadores devem ficar à distância do filme de Mitchell na mesma medida em que todos aqueles que procuram o cinema para romper com os padrões estéticos e/ou sociais devem fazer dele um programa obrigatório. Basta decidir em qual time se encaixar e esperar por 95 minutos de diversão - ou procurar um entretenimento mais careta.


TRAILLER



FONTE:





sábado, 12 de agosto de 2017

FABRÍCIO CARPINEJAR


Décima Elegia



Só na velhice o vento não ressuscita.
A água dos olhos entra na surdez da neve
e escuta a oração do estômago, dos rins, do pulmão.

O sono desce com a marcha dos ratos no assoalho.
Tudo foi julgado e devemos durar nas escolhas.

Só na velhice os grilos denunciam o meio-dia.
O exílio é na carne.

Esmorece o esforço de conciliar a verdade
com a realidade.
A neblina nos enterra vivos.

Só na velhice o pó atravessa a parede da brasa,
o riso atravessa o osso.
Deciframos a descendência do vinho.

Os segredos não são contados
porque ninguém quer ouvi-los.
O lume raso do aposento é apanhado pela ave
a pousar o bule das penas na estante do mar.

Só na velhice acomodo a bagagem nos bolsos do casaco.
O suspiro é mais audível que o clamor.

Recusamos o excesso, basta uma escova e uma toalha.

Só na velhice os músculos são armas engatilhadas.
O nome passa a me carregar.

É penoso subir os andares da voz,
nos abrigamos no térreo de um assobio.
Pedimos desculpa às cadeiras e licença ao pão.

O ódio esquece sua vingança.
Amamos o que não temos.

Só na velhice digo bom-dia e recebo
a resposta de noite.
Convém dispor da cautela e se despedir aos poucos.

Só na velhice quantos sofrem à toa
para narrar em detalhes seu sofrimento.

O pesadelo impõe dois turnos de trabalho.
Investigo-me a ponto de ser meu inimigo.

Sustentamos o atrito com o céu, plagiando
com as pálpebras o vôo anzolado, céreo, das borboletas.

Só na velhice há o receio em folhear edições raras
e rasgar uma página gasta do manuseio.
Embalo a espuma como um neto.

Confundimos a ordem do sinal da cruz.
O luto não é trégua e descanso, mas a pior luta.

Só na velhice a forma está na força do sopro.
Respeito Lázaro, que a custo de um milagre
faleceu duas vezes.

O medo é de dormir na luz.
Lamento ter sido indiscreto
com minha dor e discreto com minha alegria.

Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem.

Envelheci,
tenho muita infância pela frente.



FONTE: https://www.mensagenscomamor.com/poemas-de-carpinejar



terça-feira, 8 de agosto de 2017