segunda-feira, 18 de março de 2019

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

METRÓPOLES


por  Yuri Vasconcelos Silva


A cidade falhou. Lugar insensível que amontoa pessoas, umas sobre as outras, em torres de pedra fria com discursos na casca, só para vender. Não se enxerga mais o céu, apenas fiapos de azul ou um punhado de estrelas esmaecidas. O olhar não vai longe, sempre esbarra num absurdo construído, um muro ou miséria. Tanta gente junta e não há encontros. A praça abarca solitários em bancos ou em passos corridos. Todos estão sempre atrasados. Mas para o quê? Não se sabe o nome nem de meia dúzia de vizinhos, da moça que serve o almoço ou que abre a porta pro mundo passar. Todos se olham com desconfiança, segurando frouxo uma espécie de ódio latente que preserva a própria sobrevivência. A cidade idolatra o indivíduo. O ego. É o centro da publicidade e da política. Da ilusão e da mentira. Pretende-se um modelo da civilização, mas é um simulacro xucro. Para os seres, há mais dor que alívio dentro destas células pulsantes de pedra e energia. A cidade falhou. Quando será dado o próximo passo?

L7


"Burn Baby" from L7's upcoming full-length album 'Scatter The Rats' Out May 3rd on Blackheart Records





quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

ZÉ DA SILVA

por  ROBERTO JOSÉ DA SILVA


Foi logo cedinho que disseram que eu estava estranho. Foi a diarista, que me conhece tanto que na primeira vez fez quiabo gosmento com frango sem eu pedir. Estranhei o estranho. Mas depois que tomei o segundo balde de café… Socorro! Descobri que perdi a cor da vida. Nunca tinha acontecido antes. Não estava nas catacumbas ou no céu, o corpo sem dor, cabeça tranquila, mas… O que é isso? Olhei para Nossa Senhora Aparecida, Xangô, todos os santos, meus pais, filhos nas fotografias e nada de sentir. Ah, não, isso não é bom! Mas foi assim o dia inteiro. Eu perguntando para amigos se já tinham passado por isso – e ninguém entendia. Caiu um toró daqueles na cidade, tirei a roupa e tomei banho de chuva para ver se as cores voltavam… e nada! Pedi que o chão se abrisse para eu ficar na fossa. Pedi que um cavalo alado me levasse para as nuvens da mania. Nada. Então fui dormir muito cedo, no quarto bem escuro, para ver se acordava comigo mesmo. Foi um sonho? Não sei, mas tive a sensação de que no meio da noite meu corpo entrou no meu corpo. Ao acordar a primeira coisa que fiz foi gritar um palavrão, bem alto, daqueles cabeludos. Então ouvi uma voz que veio da rua dizendo: “Ele voltou!”


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

STAN LEE

O homem que reinventou os quadrinhos

   Stan Lee e O Homem Aranha                                                      © Nick Saglimbeni


por  Célio Heitor Guimarães


Stan Lee, que faleceu na segunda-feira, aos 95 anos de idade, não foi apenas o editor e roteirista de quadrinhos que criou centenas de personagens, até hoje cultuados por milhões de leitores de gibis e espectadores de cinema em todo o mundo. Lee foi muito mais do que isso: ele humanizou os super-heróis, aproximando-os dos seres comuns.

Até o início da década de 60, super-heróis eram figuras não apenas poderosas, mas também inatingíveis, invencíveis, incapazes de sofrer danos e, por isso, praticamente, imortais. Com Stan Lee, tudo mudou. E ele revolucionou o mundo dos comics books. Super-herói passou a ter dor de estômago, apanhar do adversário, cair em depressão, ter problemas de falta de dinheiro – igual a todos nós.

“Eu estava cansado de escrever roteiros simplistas, com palavras que jamais excediam duas sílabas…” – como regista Roberto Guedes em “Stan Lee – O Reinventor dos Super-Heróis”, Editora Kolaco, 2012. Então, Lee disse à esposa: “Vou cair fora!”. Joan interveio com o bom-senso feminino: “Ora, Stan, você sempre disse que gostaria de escrever histórias diferentes. Então, por que não faz isso e edita uma revista do jeito que você quer? O pior que pode acontecer é o (editor) Martins te demitir. Mas você já quer pular fora de qualquer jeito…”. Daí nasceu o Universo Marvel. “Tudo por culpa da minha mulher!” – pontua o quadrinhista.

O Quarteto Fantástico foi a primeira experiência, em “Fantastic Four” # 1, lançado em novembro de 1961. Um grupo de heróis bem diferente dos tradicionais, sem uniformes vistosos e identidades secretas. Além do que, o cientista Reed Richard, sua noiva Sue Storm, o irmão mais novo dela, Johnny, e um piloto de caças, Bem Grimm, têm endereço conhecido, no alto do edifício Baxter, em Manhattan. Durante a corrida espacial, em uma missão suicida, os quatro acabam expostos a misteriosos raios cósmicos. Resultado: Reed virou o Senhor Fantástico, capaz de esticar o corpo; Sue transforma-se na Garota Invisível; Johnny vira uma nova versão do velho herói dos anos 40 Tocha Humana; e Bem vira o Coisa, um ser rochoso de cor alaranjada.

O sucesso foi imediato. E, como diz Guedes, Stan Lee “sacou que tinha dinamite nas mãos”. Resgatou do ostracismo Namor, o Príncipe Submarino”, e, em parceria com o desenhista Jack Kirby, lançou o Incrível Hulk (maio de 1962). Em seguida, o Poderoso Thor (agosto de 1962), inspirado na mitologia nórdica, O Homem de Ferro (março de 1963) e Doutor Estranho (julho de 1963). Reunindo todo mundo, mais o diminuto Homem-Formiga e Vespa, surgiram Os Vingadores, e em março de 1964 foi revivido o Capitão América, não mais o super-soldado congelado num iceberg, mas um homem deslocado no tempo. Depois, vieram Nick Fury, O Falcão e o primeiro super-heróis negro, o Pantera Negra (nova criação com Kirby). Aí foi a vez dos X-Men, jovens que já nasceram com superpoderes, supervisionados pelo cientista mutante e telepata Charles Xavier, e do Demolidor (abril de 1964), bolado por Lee em parceria com o desenhista Bill Everett.

Em março de 1966, nasceria um dos mais extraordinários personagens da dupla Lee/Kirby: O Surfista Prateado, que surfava pelos céus numa prancha voadora. Arauto de Galactus, o devorador de planetas, a criatura logo rebelar-se-ia contra o criador e se tornaria exilado na Terra, atormentado pela prisão e temido e odiado pelos terráqueos. Uma obra-prima.

No entanto, a grande criação de Stan Lee foi e continuará sendo sempre O Homem-Aranha, vivido por Peter Parker, uma figurinha sem graça, sem amigos, vítima de bullying na escola, sem emprego fixo e sem dinheiro, com imensos óculos e uma tia velha para cuidar. Tudo ia nesse ritmo até que, durante uma exibição científica, uma pequena aranha contaminada por radioatividade pica o jovem, que passa a exibir habilidades idênticas às do aracnídeo: força e agilidade, uma espécie de sexto sentido e a capacidade de escalar prédios e andar pelas paredes.

O personagem, como achavam os editores, tinha tudo para dar errado. Era a antítese de um super-herói. Só que deu certo. E como! Um dos motivos foi a arte de Steve Ditko, que conferiu um visual de fragilidade e mistério ao personagem. E com o Homem-Aranha, Stan pode questionar instituições como a família, a escola, o trabalho, a imprensa e até mesmo o modelo capitalista, personificado pelo editor de “O Clarim Diário”, J. Jonah Jameson.

Muito ainda se poderia dizer sobre Stan Lee, que nasceu Stanley Martin Lieber, em 28 de dezembro de 1922, em Nova York, EUA. Infelizmente, o espaço é curto.

Acrescente-se, então, apenas, que o roteirista vinha enfrentando ultimamente uma série de problemas de saúde, além de conflitos com seu empresário, a respeito do gerenciamento de seus bens e de sua herança. Faleceu na manhã de 12 de novembro, no hospital Cedars-Sinai Medical Center, de Los Angeles, na Califórnia, deixando uma filha, Joan Celia Lee. A esposa Joan havia falecido em julho de 2017.

A DC Comics, a grande concorrente da Marvel, postou uma derradeira homenagem a Stan Lee em seu site: “Ele mudou a forma como vemos os heróis, e os quadrinhos modernos sempre carregarão sua marca indelével. Seu contagiante entusiasmo nos lembra por que nos apaixonamos por essas histórias em primeiro lugar. Excelsior, Stan!”



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

LOUIS JORDAN

Caldonia (1946)



Cena do filme "Swing Parade of 1946 "