segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

RASTROS DE ÓDIO


The searchers, 1956, 119min. Direção: John Ford. Roteiro: Frank S. Nugent, baseado no romance de Alan LeMay. Fotografia: Winton C. Hoch. Montagem: Jack Murray. Música: Max Steiner. Produção executiva: Merian C. Cooper. Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Natalie Wood, Vera Miles, Henry Brandon. Estreia: 13/3/56


Gênero americano por excelência, o western tinha no cineasta John Ford seu representante máximo e no ator John Wayne sua imagem absoluta. Apesar de terem trabalhado juntos por diversas vezes, é "Rastros de ódio", lançado em 1956, que mantém-se como a obra máxima de sua colaboração. Acusado de racista à época de seu lançamento, é hoje considerado a obra-prima de Ford, o diretor mais vezes premiado com o Oscar da categoria (quatro vitórias, nem todas por faroestes, mas todas por filmes unanimemente incensados por crítica e público).

"Rastros de ódio" já começa antológico. A porta de um rancho se abre, a silhueta de uma mulher é recortada contra um belo pôr-do-sol e Ethan Edwards (John Wayne) entra em cena. Estamos no Texas em 1868 e apesar da Guerra de Secessão já ter acabado uns bons anos antes recém o soldado da Confederação está regressando para a família. A família, no caso, é seu irmão, Aaron (Walter Coy), a cunhada Martha (Dorothy Jordan, esposa do produtor Merian C. Cooper), as duas sobrinhas Debbie e Lucy e Martin Pawley (Jeffrey Hunter), um mestiço cherokee que ele mesmo salvou depois do massacre de sua tribo. Logo depois de seu retorno, no entanto, uma tragédia acontece: a casa de seu irmão é incendiada, suas sobrinhas sequestradas e o casal violentamente morto. Ele tem certeza de que foram índios comanches que perpetraram tamanha desgraça e resolve partir em busca de vingança. A princípio junto com um grupo de soldados e depois contando apenas com Pawley, ele passa anos em busca da única sobrevivente da chacina, sua sobrinha Debbie. Seu objetivo, no entanto, não é resgatá-la e sim, matá-la, por considerar que ela já assumiu a personalidade de uma índia.

Levando em consideração as intenções de Ethan e seus pensamentos bastante preconceituosos, se vistos com os olhos de hoje, as acusações de racismo até fazem certo sentido. Mas quem há de negar que o ranço politicamente correto que hoje contamina a produção cinematográfica vem emburrecendo e deixando de tocar em assuntos pertinentes por medo de ser crucificada pelo povo médio? Em 1868, ano em que a história do filme começa (logo após a Guerra de Secessão que opôs o norte abolicionista e o sul escravagista) não havia melindres de nenhum tipo - negros eram negros, índios eram índios e os conceitos de masculinidade eram bem definidos (taí a imagem intocada de Wayne como exemplo de uma virilidade talvez anacrônica hoje em dia, mas extremamente valorizada em um Oeste selvagem e violento).

É inegável o cuidado de Ford com o visual de sua obra. A fotografia espetacular de Winton C. Hoch (ajudada pela beleza natural do famoso Monument Valley e pelas paisagens de Alberta, no Canadá) é quase uma personagem a mais da trama, acompanhando a odisséia de Ethan e Pawley em sua busca desenfreada por justiça (ou vingança, qualquer adjetivo aqui é acertado). O uso exemplar de tomadas à distância e da música grandiloquente de Max Steiner colaboram em criar o clima de épico que "Rastros" esbanja em cada fotograma. E o roteiro, adaptado de um romance de Alan LeMay, ainda encontra espaço para aliviar a tensão da caçada, com uma subtrama que envolve um namoro à distância entre o jovem Pawley e a bela Laurie (Vera Miles). Apesar de engraçado no início, esse desvio do rumo principal é o responsável pela única quebra de ritmo do filme (a briga entre Pawley e seu rival toma diversos e preciosos minutos, em uma desnecessariamente longa sequência).

"Rastros de ódio" é a quintessência do western, a fórmula do gênero em seu máximo grau de qualidade e forma. É também um perfeito exemplo de entretenimento sério e, a despeito das suas hoje equivocadas maneiras de ver os índios e as mulheres, o maior legado da dupla Ford/Wayne ao cinema.


UM FILME POR DIA



domingo, 11 de fevereiro de 2018

SOLDA





SOLDA CÁUSTICO: http://cartunistasolda.com.br/

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



Necrológio dos desiludidos do amor


Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia.

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).

Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

domingo, 28 de janeiro de 2018

FERNANDO PESSOA

FRAGMENTO 152


Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia.
A razão por que tantas vezes interrompo um pensamento com um trecho de paisagem, que de algum modo se integra no esquema, real ou suposto, das minhas impressões, é que essa paisagem é uma porta por onde fujo ao conhecimento da minha impotência criadora. Tenho a necessidade, em meio das conversas comigo que formam as folhas que escrevo, de falar de repente com outra pessoa, e dirijo-me à luz que paira, como agora, sobre os telhados das casas, que parecem molhados de tê-la de lado; ao agitar brando das árvores altas na encosta citadina, que parecem perto, numa possibilidade de desabamento mudo; aos cartazes sobrepostos das casas ingremadas, com janelas por letras onde o sol morto doira goma húmida.
Por que escrevo, se não escrevo melhor? Mas que seria de mim se não escrevesse o que consigo escrever, por inferior a mim mesmo que nisso seja?
Sou um plebeu da aspiração, porque tento realizar; não ouso o silêncio como quem receia um quarto escuro. Sou como os que prezam a medalha mais que o esforço, e gozam a glória na peliça.
Para mim, escrever é desprezar-me; mas não posso deixar de escrever. Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Há venenos necessários, e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma, ervas colhidas nos recantos das ruínas dos sonhos, papoilas negras achadas ao pé das sepulturas dos propósitos, folhas longas de árvores obscenas que agitam os ramos nas margens ouvidas dos rios infernais da alma.
Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda.
Porém eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais regressa ao mar.



*Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

BRUNA LOMBARDI


Alta Tensão

eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo
passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.

*(poema do livro O perigo do Dragão. Rio de Janeiro: Record, 1984. p. 36)