terça-feira, 18 de dezembro de 2012

KEITH RICHARDS

 

Keith Richards nasceu no dia 18 de dezembro de 1943

A alma dos Rolling Stones é negra. Keith Richards não fez o pacto como Robert Johnson na encruzilhada. Foi o contrário. Esqueçam todas as histórias marginais. Ouçam, apenas. Jagger entra de boca para o arremate, o complemento, mas a essência, ah, a essência, está no som daquela guitarra que é caldeirão da mistura blues com rock. As pedras rolam, o coração vai junto, requebra-se como se a exorcizar todos os demônios a quem também temos simpatia. Porque é assim, foi assim, será assim para sempre.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

IGGY POP

 I wanna be your dog - 1979 - live


O VERBO

 Eu xingo a mãe do juiz  
Tu amaldiçoas o bandeirinha  
Ele atira garrafas em campo  
Nós vamos parar no pronto-socorro  
Vós sois presos em flagrante  
Eles fizeram cinco gols

Solda de Holanda
 

domingo, 16 de dezembro de 2012

O HOMEM ELEFANTE

John Merrick é o “ganha pão” de um homem de circo por ser vítima de uma anomalia rara: neurofibromatose múltipla – a doença congênita que causa crescimento anormal do sistema nervoso

O Homem Elefante (Elephant Man)

O Homem Elefante (Elephant Man)

Século XIX: “A vida é cheia de surpresas. Pense no destino da mãe dessa pobre criatura. Atacada no quarto mês de gravidez… por um elefante selvagem. Atacada numa ilha perdida… na África. O resultado está aqui. Senhoras e senhores… o terrível… Homem Elefante”! Era assim que o londrino John Merrick (interpretado por John Hurt) costumava ser apresentado no circo em que era exibido como atração. Tudo porque sofria de uma doença que deformou todo seu corpo, dando a ele, uma aparência de elefante.
Um dia, o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins) conhece John e resolve estudá-lo:
- “Obrigado. Boa tarde. Sr. Thomas, Sr. Rogers… Pode abrir as cortinas. É inglês e tem 21 anos. Seu nome é John Merrick. Senhores, no decorrer da minha vida profissional… encontrei as mais lamentáveis deformidades… causadas por acidentes ou doenças, e contorções do corpo de várias naturezas. Mas nunca encontrei versão mais degradante do ser humano. Chamo-lhes a atenção para o carácter insidioso da condição do paciente. Dá pra ver lá?”. – Ele estava apresentando John numa palestra para médicos.
- “Sim”. – Respondem os outros.
- “Notem a hipertrofia craniana. O membro superior direito, totalmente inutilizado. A curvatura alarmante da espinha. Quer virar, por favor? A frouxidão da pele e os fibromas que cobrem quase todo o corpo. E tudo indica que esse padecimento sempre existiu… e vem progredindo de modo acelerado desde o nascimento. O paciente também sofre de bronquite crônica. Um detalhe interessante. Apesar das mencionadas anomalias. Os órgãos genitais do paciente não foram afetados. O seu braço esquerdo é perfeito como podem ver. Devido à sua condição… papilomas como grandes massas penduradas na pele… a hipertrofia do membro superior direito e todos os seus ossos… a acentuada deformidade da cabeça… o paciente foi apelidado de Homem Elefante. Obrigado”.
(palmas)
The Elephant Man foi o primeiro filme reconhecido do diretor David Lynch, lançado em 1980 com oito indicações ao Oscar no ano seguinte. Em preto-e-branco é baseado numa história real de um órfão “ganha-pão” de Mr. Bytes (Freddie Jones). Baseado em uma história real, o roteiro conta a vida de Joseph Merrick, nascido em Leicester, Inglaterra em 1862. Joseph tinha dois anos quando sua mãe notou que o filho tinha algo estranho. O moço deixou a casa cedo e foi vendedor de rua, operário, mas só conseguiu ser reconhecido como um freak-show (espetáculo de aberrações). Serviu como “ganha-pão” de um homem que o apresentava num circo, e vivia em numa espécie de cativeiro e apanhava de seu “assessor de imprensa”. Ao ser encontrado pelo Dr. Treves, futuro médico da Família Real Britânica, é levado para morar num hospital e ter uma qualidade de vida melhor. Ser estudado. Nasce aí um vínculo de amizade entre os dois.
- “Num hospital não pode haver segredos. Um médico não acolhe um encapuçado sem suscitar comentários. Porque esse paciente não foi admitido formalmente? Porque está no isolamento?” Ele não é contagioso, é? – pergunta o diretor do hospital para o Dr. Treves.
- “Não senhor; ele tem bronquite e foi muito surrado”.
- “Porque então ele não está na enfermaria?”
- “Achei que os outros pacientes se chocariam”.
- “Então é isso? Devo concluir que ele é incurável?”
- “Sim, senhor.”
- “O senhor sabe que não aceitamos pacientes incuráveis. É a regra aqui”.
- “Eu sei disso senhor, mas este caso é excepcional”.
A criatura horrível até certo ponto diagnosticada como doente mental por não saber se expressar torna-se alguém amável, digna de atenção e carinho. Mesmo que em nenhum momento permaneça livre do monstruoso preconceito que o cercava.
Na maioria dos filmes, o personagem principal sempre se transforma. Em outros, aquele homem “durão” que nos conduziu até o final da trama permanece intactamente igual, deixa que sua mensagem fatal ou não disperse ou então sobressaia-se no meio do imenso cenário produzido. Mas em O Homem Elefante, o personagem principal se revela. É nessa revelação que ocorre uma aproximação do espectador com sua própria noção de realidade; tão sombria quanto à feiúra de John. Tão escandalosa e apelativa quanto ele.
Uma condução crítica de vida, de valores, de ética, de solidariedade, de sociedade… são colocadas através do apelo “surreal” dessa história. “O mundo tem que ser representado para ser reconhecido”: uma reflexão sobre invisibilidade social e humana, longe de ser invisível. Deveríamos, em certa medida, nos incluir nisso.
*Bibliografia

LYNCH, David. O Homem Elefante. 1980. Obs: as aspas dos diálogos usados na resenha foram retiradas do próprio filme.
MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas & Pós-cinemas. 2. ed. Campinas – São Paulo: Papirus, 2002. p. 58 e 59.

David Lynch

David Lynch

Observações:

O “personagem” real morreu de asfixia em 1890, quando foi deitar para dormir, o peso da cabeça esmagou a traquéia. Seu corpo está conservado no Hospital Real Londres – a quem interessar possa.

Anamorfose

A produção de alucinações teve início no século XVII, com o conceito de Anamorfose; um instrumento gerador de alucinações cujas técnicas constituem em um deslocamento do ponto de vista a partir do qual a imagem é visualizada, sem eliminar a posição anterior, decorrendo num desarranjo de perspectivas originais com a idéia de distorcer o padrão “realista” (renascentista) da técnica. Mas abrangeu uma poética da abstração, um efetivo mecanismo de ilusão de ótica, e até mesmo “uma filosofia da falsificação da realidade”. (Baltrusaitis 1977, p.1).
Vale reparar que Lynch fez uso da técnica no filme O Homem Elefante.

*A resenha do filme O Homem Elefante foi publicada por Mayra Matuck Sarak, editora do site Uma Tela Indiscreta.

sábado, 15 de dezembro de 2012

RAPHAEL KIRCHNER






INCÓLUME

Eu me envenenei com minha vaidade e pelas idades fui até o alto da montanha para olhar os considerados estúpidos e vis em um lugar em que não me caberia estar. Mas lá estava eu, sozinha e sem correntes, livre e com todos os graus de um ser inteligente, que usou sua inteligência para se impor. E assim eu esqueci de meus pés, assim como usei minhas mãos apenas para retirar as pedras do caminho. Esqueci os que vinham atrás e as atirei sem cuidado. Não olhei para trás, como reza a velha sabedoria, ato que muitas vezes pode se tornar um equívoco. O grande erro é que não me recordo porque caminhei, para que e o que esperava ver do alto da montanha. Fixei-me na ideia de chegar e de me testar e esqueci de apreciar, de me perdoar por errar, de reinventar novos caminhos e de me abrir para o que poderia acontecer. Peguei o meu cajado e trilhei até o topo. Cheguei, me extasiei e esqueci de caminhar novamente ao vale para contar aos curiosos, aos bons, aos perdidos, aos loucos e santos que existe sim um lugar onde se é livre de verdade, onde o coração se transforma no próprio coração do Universo e canta a canção dos infindos tempos. E cá estou eu, escrevendo esta declaração da dor mais triste que um ser pode sentir, que é a de se esquecer dos outros, de tudo, do que realmente vale a pena. E de que não há realização sem união.
Hoje estou na planície, como uma ave que busca seu alimento na terra e se esquece do céu. Mas, por saber de tudo isso, ainda me pego sonhando com a grande liberdade que me arrebatou e que hoje é a minha própria prisão.
Sem inspiração não há imaginação que sobreviva ao primeiro revés da vida. Sem amor não há quem sobreviva ao primeiro maremoto. Sem luz, não há espírito que grite no escuro por medo da solidão. Sem angústias, não há pulmão que se encha de esperança. E mesmo que a mente seja o nosso ambíguo amigo, não há caminho que se faça sem uma força que está além da montanha.
Sinto-me arranhanda, machucada, ferida, assutada, acuada e perdida depois de ter caído da montanha, mas minha alma me suspirou o seguinte título para esse texto: incólume.
Obs.: quando menciono cajado, não é uma apologia a profetas, mas sim uma metáfora do quanto necessitamos caminhar com algo que nos dá apoio externamente (família, drogas, festas, trabalho, paixões, enfim, nossos apegos), ou seja, o quão difícil é caminhar sobre nossas próprias pernas para alcançar nossas metas.




FONTE: http://paradoxodoser.blogspot.com.br/2012/12/incolume.html

FOTOS










Fotografias de Ricardo Silva