Na cidade do sul do litoral baiano eu vi meu pai que não era meu pai. Há três dias que estava encostado naquela barraca que tinha um arco-iris desenhado e bebia feito uma criança nas grandes tetas maternas. Vodca. O mar era tão transparente que deu até vontade de cuspir nele para sujar um pouco tanta beleza. E havia cores fortes, uma luz de ferir os olhos. Foi quando meu pai que não era meu pai apareceu de repente e passou a uma distância de uns cinco metros. Descobri que era meu pai que não era meu pai porque nossos olhares se cruzaram e não desgrudaram. Quem desgrudou foi o tempo, que parou e nada mais existia fora daquele instante. Meu pai que não era meu pai tinha os olhos cristalinos feito bola de gude. Azuis bem claros, como meu pai que é meu pai. Meu coração disse que aquele era meu pai, mesmo eu vendo que não era meu pai. Então houve um sorriso da parte dele e aí todo o corpo se transformou e, agora sim, era meu pai em carne, osso e alma. Eu pedi a benção. Ele deu e disse fique com Deus. E quando terminou a frase voltou a ser meu pai que não era meu pai e foi embora. Eu bebi mais e dormi ali mesmo, ao lado do arco-iris. Quando acordei tive a certeza de que não morreria tão cedo. Meu pai que era meu pai morreu um tempo depois, mas demorou um pouco, e foi muito longe dali.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
CABEÇA DE PEDRA
Na cidade do sul do litoral baiano eu vi meu pai que não era meu pai. Há três dias que estava encostado naquela barraca que tinha um arco-iris desenhado e bebia feito uma criança nas grandes tetas maternas. Vodca. O mar era tão transparente que deu até vontade de cuspir nele para sujar um pouco tanta beleza. E havia cores fortes, uma luz de ferir os olhos. Foi quando meu pai que não era meu pai apareceu de repente e passou a uma distância de uns cinco metros. Descobri que era meu pai que não era meu pai porque nossos olhares se cruzaram e não desgrudaram. Quem desgrudou foi o tempo, que parou e nada mais existia fora daquele instante. Meu pai que não era meu pai tinha os olhos cristalinos feito bola de gude. Azuis bem claros, como meu pai que é meu pai. Meu coração disse que aquele era meu pai, mesmo eu vendo que não era meu pai. Então houve um sorriso da parte dele e aí todo o corpo se transformou e, agora sim, era meu pai em carne, osso e alma. Eu pedi a benção. Ele deu e disse fique com Deus. E quando terminou a frase voltou a ser meu pai que não era meu pai e foi embora. Eu bebi mais e dormi ali mesmo, ao lado do arco-iris. Quando acordei tive a certeza de que não morreria tão cedo. Meu pai que era meu pai morreu um tempo depois, mas demorou um pouco, e foi muito longe dali.
sábado, 21 de junho de 2014
quinta-feira, 19 de junho de 2014
AMARGO PESADELO

AMARGO PESADELO (Deliverance, 1972, Warner Bros, 110min) Direção: John Boorman. Roteiro: James Dickey, baseado em seu romance homônimo. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Tom Priestly. Casting: Lynn Stalmaster. Produção: John Boorman. Elenco: Burt Reynolds, Jon Voight, Ned Beatty, Ronny Cox, Bill McKinney, Herbert "Cowboy" Coward. Estreia: 30/7/72
3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Boorman), Montagem
Existe uma corrente de pensamento que afirma que a natureza, quando desafiada, é capaz de punições devastadoras. Exemplos de terremotos, maremotos e afins não faltam para, de certa forma, confirmar a teoria. No entanto, o castigo da natureza pode vir de forma menos escandalosa, como mostra "Amargo pesadelo", adaptação do romance de James Dickey que chegou aos cinemas em 1972 dirigido pelo inglês John Boorman. Ao confrontar quatro homens urbanos e auto-suficientes com um caudaloso rio repleto de corredeiras, uma mata pouco amistosa e montanheses sádicos, Dickey e Boorman criaram um dos filmes mais ousados do início da década de 70, repleto de uma violência física e psicológica quase impensável mesmo para os dias de hoje, com a plateia já anestesiada com a dieta sanguinária dos filmes de ação pós-Schwarzenegger. Mais do que simplesmente um filme violento, "Amargo pesadelo" é assustadoramente real e é isso que o torna tão especial a ponto de receber indicações ao Oscar de Melhor Filme e Diretor (para seu azar, justamente no mesmo ano de "O poderoso chefão" e "Cabaret").

Talvez o maior mérito do roteiro de "Amargo..." seja ter conseguido criar personagens verossímeis envolvidos em uma trama quase surreal: quatro amigos da cidade grande resolvem tirar um fim-de-semana longe das famílias e do agito da metrópole para contemplar a natureza. Seu objetivo, na verdade, é desafiar as violentas corredeiras de um rio que está em vias de ser transformado em lago devido à construção de uma represa. Liderados por Lewis (Burt Reynolds em papel recusado por Charlton Heston e Henry Fonda), eles desejam usufruir da bucólica paisagem antes de voltar às suas corridas rotinas. As coisas começam a sair do normal quando dois integrantes do grupo, Ed (Jon Voight) e Bobby (Ned Beatty) são atacados por dois truculentos montanheses. Amarrado em uma árvore, Ed presencia Bobby sendo estuprado por um dos criminosos, mas escapa de ser também abusado quando Lewis mata um dos agressores com uma flechada. É o início de uma angustiante jornada em direção ao desespero.

Depois que a tragédia começa, a natureza, que antes servia como paisagem e um perfeito exemplo de tranquilidade e paz, transforma-se, também ela, em uma vilã. Presos em um lugar que não conhecem, os amigos precisam decidir como agir com o cadáver de um homem em suas mãos e a ameaça de outro a suas costas. Dissonante do resto do grupo, que prefere esconder o corpo da vítima de Lewis, o último viajante, Drew (Ronny Cox) entra em conflito com eles, complicando ainda mais as coisas.

John Boorman não poupa ninguém em seu filme mais famoso e que quase lhe deu um Oscar. Apesar de ter pego mais leve do que no livro, ele explicita cenas que são chocantes e desagradáveis sem ter medo de afastar seu público. Quando, no terço final do filme, o desajeitado Ed assume a liderança da travessia, Boorman leva a plateia junto em sua desesperada luta pela sobrevivência e sanidade física, e para isso, conta com um elenco exemplar.
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Apesar de Lee Marvin e Marlon Brando terem sido cotados para os papéis centrais, Burt Reynolds e Jon Voight apropriam-se das personagens com desenvoltura e inteligência. Logo em seguida Reynolds transformaria-se em êxito de bilheteria com filmes mais leves de aventura, enquanto Voight seguiria firme rumo à credibilidade artística que culminaria com um Oscar seis anos depois, por "Amargo regresso".

Lembrado por sua famosa cena onde Drew participa de um duelo de banjos com um caipira com problemas mentais, "Amargo pesadelo" tem um título nacional bastante apropriado. Se Kafka fosse escrever um romance passado junto à natureza, certamente seria como este.
FONTE: http://clenio-umfilmepordia.blogspot.com.br/2010/05/amargo-pesadelo.html
sexta-feira, 13 de junho de 2014
SER CRU NÃO É SER NU
A nudez é a mais bela expressão de uma alma sem correntes
Ela, muda, fala e cala tudo
O corpo cru não reivindica a sua natureza
O corpo nu revela a mais elevada beleza
Nu e cru são antônimos em um corpo
Um tem que ser lapidado
O outro deve ser contemplado
O que se vê apenas se revela ao que olha
Ser nu ou cru é mais uma questão de ponto de vista
Do que de cobiça.
O corpo cru não reivindica a sua natureza
O corpo nu revela a mais elevada beleza
Nu e cru são antônimos em um corpo
Um tem que ser lapidado
O outro deve ser contemplado
O que se vê apenas se revela ao que olha
Ser nu ou cru é mais uma questão de ponto de vista
Do que de cobiça.

