domingo, 10 de janeiro de 2016

RAY HARRYHAUSEN

Drawings

A MENSAGEM

por Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)


Um amigo nosso, comandante da VASP, conta-me a estranha mensagem recebida por um piloto americano durante uma aterrissagem.

O avião da companhia norte-americana sobrevoava a Bahia, a caminho do Rio, quando um defeito no motor obrigou o piloto a providenciar uma aterrissagem no aeroporto mais próximo possível.

Na Bahia, justamente na pequena cidade de Barreiras, existe uma pista de emergência (se é que se pode chamar aquilo de pista) para os aviões das linhas internacionais. Raramente é usada, mas era a mais próxima da rota do avião. Assim, o piloto não teve dúvidas. A situação dele estava muito mais pra urubu do que pra colibri. 0 negócio era mesmo se mandar para Barreiras.

Pediu pouso durante certo tempo, dirigindo-se à Rádio local em inglês. A resposta demorou um pouco, mas acabou vindo. Alguém, com forte sotaque nordestino, falando um inglês arrevesado e misturado com palavras em português, respondia que estava ouvindo e aconselhava o comandante a procurar outro local para aterrissagem.

Há dias estava chovendo em Barreiras e a pista se achava em péssimo estado.

O piloto, sem outra alternativa, insistiu em pousar assim mesmo, e tornou a pedir instruções, ouvindo-se lá a voz a dizer que estava bem, mas que não se responsabilizava pelo que desse e viesse.

Acontece porém que isso foi dito com outras palavras, ainda num misto de português e inglês. Assim:

— Ok. You land. But se der bode, I'il take my body out.


*Texto extraído do livro "10 em Humor", Editora Expressão e Cultura — Rio de Janeiro, 1968, pág. 42.


BETTY BOOP

© Max Fleischer

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

VELHO LIMPO


daqui a
uma semana farei
55.

sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?

meus críticos
vão adorar
quando a minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas-do-mar.

chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim

como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.


CHARLES  BUKOWSKI

DISCOTECA BÁSICA

Carl Perkins
Original Sun Greatest Hits (1986)
(Edição 152,Março de 1998)

Estatisticamente, Carl Perkins não passa de um artista de um sucesso só. Apenas o clássico "Blue Suede Shoes’’ registrou alto nas paradas de sucesso da revista Billboard. Mas, da mesma forma como aconteceu com Velvet Underground e MC 5, a influência de Perkins foi muito superior a seu êxito comercial. O cantor e guitarrista, morto no último dia 19 de janeiro aos 65 anos, foi sinônimo do rockabilly e fator decisivo na carreira de gente como George Harrison, Eric Clapton, Brian Setzer e muitos outros.
Pobre e ambicioso, Perkins não diferia muito dos centenas de jovens músicos que rondavam a Sun Records de Memphis (única gravadora que pode clamar o título de berço do autêntico rock’n’roll). Ele começou a gravar na Sun logo depois de Elvis Presley, mas Sam Phillips, dono da empresa, vetou suas inclinações country. A recomendação de Phillips foi clara: queria que o cantor achasse "um som diferente’’.
Perkins então acelerou sua música e colocou no country muita pegada de blues. Ao lado de Scotty Moore (também guitarrista de Elvis), ele logo se tornou um dos primeiros guitar heroes brancos da história do rock. Seu estilo de tocar era certeiro e preciso, e seu fraseado, cheio de elegância, remontava a músicos como Merle Travis, pioneiro da guitarra no country.
Grande instrumentista, Perkins também sacava a linguagem da juventude da época. É o caso do clássico "Blue Suede Shoes’’, um hino ao narcisismo e ao estilo cool dos rockers dos anos 50. Lançada no final de 1955, a música estourou em todas as paradas americanas e fez dele um astro nacional muito antes de Elvis Presley.
Infelizmente, Perkins sofreu um acidente de carro que o tirou de cena por vários meses. Quando voltou a gravar, tinha até evoluído, mas nunca recuperou sua popularidade inicial. Músicas como "Everybody’s Trying To Be My Baby’’, "Put Your Cat Clothes On", "Matchbox’’, "Sure To Fall’’, "Lend Me Your Comb’’, "Glad All Over’’, "Honey Don’t" são peças definitivas do rockabilly e obrigatórias no aprendizado de qualquer guitarrista com aspirações a roqueiro. Quase todas essas músicas foram gravadas pelos Beatles - nos discos oficiais ou em registros só lançados recentemente, como Live At BBC e a série Anthology. Nenhum outro artista teve tantas composições regravadas pelo maior grupo de rock de todos os tempos.
Depois que saiu da Sun, Perkins foi para Columbia e lançou pelo menos um disco antológico, o notável Whole Lotta Shaking (1959). Depois se dedicou mais ao country. Nunca, porém, abandonou o rockabilly. O melhor exemplo dessa fidelidade é Go, Cat Go, seu último trabalho, lançado no fim de 1996 (e inexplicavelmente fora de catálogo). Mas é seu registro na Sun que o colocou no mapa como um dos grandes do rock’n’roll. E toda a vez que alguém atacar "it’s one for the money, two for the show", Perkins vai sentir a confirmação de que fez seu trabalho direitinho.

Paulo Cavalcanti

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

SOLDA CÁUSTICO

HUMOR
“Não faças aos outros o que gostarias que te fizessem a ti. O gosto deles pode não ser o mesmo”. George Bernard Shaw

SOLDA CÁUSTICO: http://cartunistasolda.com.br/

sábado, 2 de janeiro de 2016

MUNDO PEQUENO

de Manoel de Barros

I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. "Sonora voz de uma concha",
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam
cigarras." Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: "Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

VI
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.


*do livro "O Livro das Ignorãças" - ed. Civilização Brasileira.


FONTE:http://www.jornaldepoesia.jor.br/manu.html#mundo