CÁUSTICO
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quarta-feira, 10 de junho de 2015
MEU DEUS, ME DÊ A CORAGEM
por Clarice Lispector
Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços o meu pecado de pensar.
terça-feira, 9 de junho de 2015
O MELHOR AMIGO
Crônica de Fernando Sabino
A mãe estava na sala, costurando. O menino abriu a porta da rua, meio ressabiado, arriscou um passo para dentro e mediu cautelosamente a distância. Como a mãe não se voltasse
Para vê-lo, deu uma corridinha em direção de seu quarto.
– Meu filho? – gritou ela.
– O que é – respondeu, com o ar mais natural que lhe foi possível.
– Que é que você está carregando aí?
Como podia ter visto alguma coisa, se nem levantara a cabeça? Sentindo-se perdido,tentou ainda ganhar tempo.
– Eu? Nada…
– Está sim. Você entrou carregando uma coisa.
Pronto: estava descoberto. Não adiantava negar – o jeito era procurar comovê-la.Veio caminhando desconsolado até a sala, mostrou à mãe o que estava carregando:
– Olha aí, mamãe: é um filhote…
Seus olhos súplices aguardavam a decisão.
– Um filhote? Onde é que você arranjou isso?
– Achei na rua. Tão bonitinho, não é, mamãe?
Sabia que não adiantava: ela já chamava o filhote de isso. Insistiu ainda:
– Deve estar com fome, olha só a carinha que ele faz.
– Trate de levar embora esse cachorro agora mesmo!
– Ah, mamãe… – já compondo uma cara de choro.
– Tem dez minutos para botar esse bicho na rua. Já disse que não quero animais aqui em casa. Tanta coisa para cuidar, Deus me livre de ainda inventar uma amolação dessas.
O menino tentou enxugar uma lágrima, não havia lágrima. Voltou para o quarto, emburrado:
A gente também não tem nenhum direito nesta casa – pensava. Um dia ainda faço um estrago louco. Meu único amigo, enxotado desta maneira!
– Que diabo também, nesta casa tudo é proibido! – gritou, lá do quarto, e ficou
esperando a reação da mãe.
– Dez minutos – repetiu ela, com firmeza.
– Todo mundo tem cachorro, só eu que não tenho.
– Você não é todo mundo.
– Também, de hoje em diante eu não estudo mais, não vou mais ao colégio, não
faço mais nada.
– Veremos – limitou-se a mãe, de novo distraída com a sua costura.
– A senhora é ruim mesmo, não tem coração!
– Sua alma, sua palma.
Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois… ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável:
– Vamos, chega! Leva esse cachorro embora.
– Ah, mamãe, deixa! – choramingou ainda: – Meu melhor amigo, não tenho mais
ninguém nesta vida.
– E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe?
– Mãe e cachorro não é a mesma coisa.
– Deixa de conversa: obedece sua mãe.
Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça praticada e eles perdem a cabeça, um recalque, complexos, essa coisa
– Pronto, mamãe!
E exibia-lhe uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido seu melhor amigo por trinta dinheiros.
– Eu devia ter pedido cinqüenta, tenho certeza que ele dava murmurou, pensativo.
Para vê-lo, deu uma corridinha em direção de seu quarto.
– Meu filho? – gritou ela.
– O que é – respondeu, com o ar mais natural que lhe foi possível.
– Que é que você está carregando aí?
Como podia ter visto alguma coisa, se nem levantara a cabeça? Sentindo-se perdido,tentou ainda ganhar tempo.
– Eu? Nada…
– Está sim. Você entrou carregando uma coisa.
Pronto: estava descoberto. Não adiantava negar – o jeito era procurar comovê-la.Veio caminhando desconsolado até a sala, mostrou à mãe o que estava carregando:
– Olha aí, mamãe: é um filhote…
Seus olhos súplices aguardavam a decisão.
– Um filhote? Onde é que você arranjou isso?
– Achei na rua. Tão bonitinho, não é, mamãe?
Sabia que não adiantava: ela já chamava o filhote de isso. Insistiu ainda:
– Deve estar com fome, olha só a carinha que ele faz.
– Trate de levar embora esse cachorro agora mesmo!
– Ah, mamãe… – já compondo uma cara de choro.
– Tem dez minutos para botar esse bicho na rua. Já disse que não quero animais aqui em casa. Tanta coisa para cuidar, Deus me livre de ainda inventar uma amolação dessas.
O menino tentou enxugar uma lágrima, não havia lágrima. Voltou para o quarto, emburrado:
A gente também não tem nenhum direito nesta casa – pensava. Um dia ainda faço um estrago louco. Meu único amigo, enxotado desta maneira!
– Que diabo também, nesta casa tudo é proibido! – gritou, lá do quarto, e ficou
esperando a reação da mãe.
– Dez minutos – repetiu ela, com firmeza.
– Todo mundo tem cachorro, só eu que não tenho.
– Você não é todo mundo.
– Também, de hoje em diante eu não estudo mais, não vou mais ao colégio, não
faço mais nada.
– Veremos – limitou-se a mãe, de novo distraída com a sua costura.
– A senhora é ruim mesmo, não tem coração!
– Sua alma, sua palma.
Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois… ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável:
– Vamos, chega! Leva esse cachorro embora.
– Ah, mamãe, deixa! – choramingou ainda: – Meu melhor amigo, não tenho mais
ninguém nesta vida.
– E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe?
– Mãe e cachorro não é a mesma coisa.
– Deixa de conversa: obedece sua mãe.
Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça praticada e eles perdem a cabeça, um recalque, complexos, essa coisa
– Pronto, mamãe!
E exibia-lhe uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido seu melhor amigo por trinta dinheiros.
– Eu devia ter pedido cinqüenta, tenho certeza que ele dava murmurou, pensativo.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
quinta-feira, 4 de junho de 2015
DISCOTECA BÁSICA
JEFF BECK
BLOW BY BLOW (1975)

Aos 30 anos, Jeff Beck já acumulava um vasto currículo: integrou os Yardbirds (que revelou, além dele, os virtuosos Eric Clapton e Jimmy Page), trouxe em cena Ron Wood e Rod Stewart com o The Jeff Beck Group e intensificou a experiência com o blues no Beck, Bogert & Appice, além de ter feito testes para se tornar guitarrista dos Rolling Stones – que não deu certo por incompatibilidade sonora.
Dizem que quando essa idade chega, passamos por uma crise que exige mudanças: a tal ‘crise da meia idade’. Já que é assim, encaremosBlow by Blow como resultado dessa busca.
No primeiro disco de nomenclatura solo, o músico optou por trabalhar o tal rock instrumental, com forte aproximação do jazz – que fez com que muitos catalogassem o disco como ‘fusion-rock’.
Mas há muitos gêneros contidos em Blow by Blow. Começa com um funk atravessado em “You Know What I Mean”, que supõe que coisas divertidas estão por vir na audição do disco. Bootsy Collins certamente aprovaria os teclados límpidos de Max Middleton, que divide com Jeff a autoria da faixa.
Em seguida, Jeff Beck faz uma experimentação com “She’s a Woman”, dos Beatles. A linha inicial da canção é toda blueseira, mas logo Middleton novamente distorce os teclados, simulando as falas da canção.
Como era de se esperar, o músico britânico só chamou gente de calibre pra tocar com ele: Phil Chen frita tudo com o baixo (bem perceptível em “Constipated Duck”, onde Frank Zappa certamente encaixaria as palavras certas para transformar em composição dele) e Richard Bailey deixa tudo com cara jazzística em sua bateria – vide “Freeway Jam” para comprovar.
George Martin, o quinto beatle, colabora como produtor das faixas “Diamond Dust” – uma linda balada guiada por harmonias sutis e orquestrações – e a pungente “Scatterbrain”, uma jam intensa que exibe os melhores solos (e olha que são muitos!) de Jeff Beck. Na faixa, você percebe a habilidade do músico de ligar o blues-rock ao jazz, como se fosse a soma de um John McLaughlin com Muddy Waters.
Outro músico que colaborou foi o soulman Stevie Wonder. Ele compôs o blues de “Cause We’ve Ended as Lovers”, que Jeff dedicou a Roy Buchanan (pioneiro da guitarra Fender Telecaster), e “Thelonious”, dedicada ao grande pianista do jazz que, por seu vigor e sintonia, traça um paralelo com o bebop, gênero explorado por Thelonious Monk.
É pra ouvir no talo!
01 You Know What I Mean
02 She's a Woman
03 Constipated Duck
04 Air Blower
05 Scatterbrain
06 Cause We've Ended as Lovers
07 Thelonious
08 Freeway Jam
09 Diamond Dust
Gravadora: Epic
Data de Lançamento: março de 1975
02 She's a Woman
03 Constipated Duck
04 Air Blower
05 Scatterbrain
06 Cause We've Ended as Lovers
07 Thelonious
08 Freeway Jam
09 Diamond Dust
Gravadora: Epic
Data de Lançamento: março de 1975
por TIAGO FERREIRA
Se surgiu ou não por conta da ‘crise de meia idade’, difícil saber. Só não dá pra negar que é uma obra de arte sonora que liga o blues ao jazz com muito virtuosismo e sintonia.
Aos 30 anos, Jeff Beck já acumulava um vasto currículo: integrou os Yardbirds (que revelou, além dele, os virtuosos Eric Clapton e Jimmy Page), trouxe em cena Ron Wood e Rod Stewart com o The Jeff Beck Group e intensificou a experiência com o blues no Beck, Bogert & Appice, além de ter feito testes para se tornar guitarrista dos Rolling Stones – que não deu certo por incompatibilidade sonora.
Dizem que quando essa idade chega, passamos por uma crise que exige mudanças: a tal ‘crise da meia idade’. Já que é assim, encaremosBlow by Blow como resultado dessa busca.
No primeiro disco de nomenclatura solo, o músico optou por trabalhar o tal rock instrumental, com forte aproximação do jazz – que fez com que muitos catalogassem o disco como ‘fusion-rock’.
Mas há muitos gêneros contidos em Blow by Blow. Começa com um funk atravessado em “You Know What I Mean”, que supõe que coisas divertidas estão por vir na audição do disco. Bootsy Collins certamente aprovaria os teclados límpidos de Max Middleton, que divide com Jeff a autoria da faixa.
Em seguida, Jeff Beck faz uma experimentação com “She’s a Woman”, dos Beatles. A linha inicial da canção é toda blueseira, mas logo Middleton novamente distorce os teclados, simulando as falas da canção.
Como era de se esperar, o músico britânico só chamou gente de calibre pra tocar com ele: Phil Chen frita tudo com o baixo (bem perceptível em “Constipated Duck”, onde Frank Zappa certamente encaixaria as palavras certas para transformar em composição dele) e Richard Bailey deixa tudo com cara jazzística em sua bateria – vide “Freeway Jam” para comprovar.
George Martin, o quinto beatle, colabora como produtor das faixas “Diamond Dust” – uma linda balada guiada por harmonias sutis e orquestrações – e a pungente “Scatterbrain”, uma jam intensa que exibe os melhores solos (e olha que são muitos!) de Jeff Beck. Na faixa, você percebe a habilidade do músico de ligar o blues-rock ao jazz, como se fosse a soma de um John McLaughlin com Muddy Waters.
Outro músico que colaborou foi o soulman Stevie Wonder. Ele compôs o blues de “Cause We’ve Ended as Lovers”, que Jeff dedicou a Roy Buchanan (pioneiro da guitarra Fender Telecaster), e “Thelonious”, dedicada ao grande pianista do jazz que, por seu vigor e sintonia, traça um paralelo com o bebop, gênero explorado por Thelonious Monk.
É pra ouvir no talo!











