JAMES STEWART
FONTE: http://www.doctormacro.com/Movie%20Star%20Pages/Stewart,%20James-Annex.htm
sábado, 26 de janeiro de 2013
HORÓSCOPO
por Zé da Silva
Capricórnio
A rua era estranha, a noite fria e o boteco ficava abaixo do nível do asfalto. Duas portas e um balcão. Tradicional. Aspecto sujo. Ele desceu os lances dos degraus, sentou no banquinho de fórmica giratório e pediu a cerveja gelada. Estava com fome. Olhou uma lousa com o cardápio escrito em giz branco. Pediu o sanduíche de queijo com salaminho. Viu o funcionário de avental rasgado cortar o pãozinho francês e lambuzar as duas partes internas com alguma coisa que parecia ser manteiga e que estava dentro de um pote de plástico transparente. Um carro com escapamento aberto passou na rua. Ele olhou. Ao se voltar para o balcão o sandubão estava ali, ao lado do copo, cortado e com as partes do meio voltadas para o freguês – no caso, ele. Havia muito queijo e muito salame cortado em finas fatias. Nunca tinha visto e/ou comido algo daquela magnitude. Tomou um gole da cerveja servida em copo americano. Pegou metade do sanduíche, mordeu, mastigou e… Foi tomado por algo tão inexplicável que até hoje, passados quase quarenta anos, não sabe identificar. Só diz que ficou viciado neste tipo de sanduíche e sempre que tem oportunidade pede do mesmo jeito, ou seja, com manteiga. Nunca mais comeu algo parecido como aqueles, pois, enquanto pode, voltou ao boteco, na mesma hora, no mesmo dia da semana, para repetir a dose. Mudou de estado, foi embora para muito longe, mas no dia em que voltou a passeio, foi procurar o bar – que havia fechado há muito tempo, explicaram os vizinhos. Ele sentou nos degraus por um tempo. Olhou as portas de ferro enferrujadas e pichadas. Fechou os olhos. Sentiu novamente o gosto depois da primeira mordida. Levantou. Foi embora. À procura do sanduíche perdido.
FONTE: http://jornale.com.br/zebeto/2013/01/26/horoscopo-359/
Capricórnio
A rua era estranha, a noite fria e o boteco ficava abaixo do nível do asfalto. Duas portas e um balcão. Tradicional. Aspecto sujo. Ele desceu os lances dos degraus, sentou no banquinho de fórmica giratório e pediu a cerveja gelada. Estava com fome. Olhou uma lousa com o cardápio escrito em giz branco. Pediu o sanduíche de queijo com salaminho. Viu o funcionário de avental rasgado cortar o pãozinho francês e lambuzar as duas partes internas com alguma coisa que parecia ser manteiga e que estava dentro de um pote de plástico transparente. Um carro com escapamento aberto passou na rua. Ele olhou. Ao se voltar para o balcão o sandubão estava ali, ao lado do copo, cortado e com as partes do meio voltadas para o freguês – no caso, ele. Havia muito queijo e muito salame cortado em finas fatias. Nunca tinha visto e/ou comido algo daquela magnitude. Tomou um gole da cerveja servida em copo americano. Pegou metade do sanduíche, mordeu, mastigou e… Foi tomado por algo tão inexplicável que até hoje, passados quase quarenta anos, não sabe identificar. Só diz que ficou viciado neste tipo de sanduíche e sempre que tem oportunidade pede do mesmo jeito, ou seja, com manteiga. Nunca mais comeu algo parecido como aqueles, pois, enquanto pode, voltou ao boteco, na mesma hora, no mesmo dia da semana, para repetir a dose. Mudou de estado, foi embora para muito longe, mas no dia em que voltou a passeio, foi procurar o bar – que havia fechado há muito tempo, explicaram os vizinhos. Ele sentou nos degraus por um tempo. Olhou as portas de ferro enferrujadas e pichadas. Fechou os olhos. Sentiu novamente o gosto depois da primeira mordida. Levantou. Foi embora. À procura do sanduíche perdido.
FONTE: http://jornale.com.br/zebeto/2013/01/26/horoscopo-359/
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
A FENDA
por Ticiana Vasconcelos Silva
Do muro desgastado e endurecido pelo tempo abriu-se uma fenda
tão libertária quanto as mãos que a evitaram.
Mas de tão subestimada e evitada, fez-se das próprias armas
que a negaram. Ela nasceu para dar sentido a algo que nem sequer se imagina, pois
tudo parece ser tão natural e normal, que nada se consagra como se deveria. Por
isso, não se dá valor a uma folha, mas sim à árvore que a contém. E da mesma
maneira, a fenda é tão vil quanto aquela chuva que não molhou a alma.
A fenda é o caminho de poucos e raros, que se atrevem a
conhecer o além muro e que foram sufocados pelo peso cinza da matéria e
passaram muito tempo no escuro, dentro dessa estrutura.
Sua força está na esperança e na possibilidade que a fenda
lhes proporcionou, de fazer brotar uma singela e potente vida por entre os
maciços e densos cimentos, fragmentários e ladrões da eterna canção da
liberdade. Estruturas feitas de medo e da busca insensata por segurança, que
nos separam e nos distanciam da verdade: a de que estamos todos unidos.
Mas a fenda é feita pelo tempo, pela ação inexorável do
movimento eterno de mudança e desapego. É por ela que transpassam todas
as
essências que a imaginaram e tiveram a coragem de forjar sua própria
força,
permanecendo fiéis ao estado latente e potencial da fenda. Um dia ela
nasceria e abriria caminho aos que nela acreditaram e com ela sonharam.
Essa é a história e a razão de ser da fenda. Sem ela nada disso seria
possível. E sem a criatividade e a imaginação, ela não teria sentido.
Seria apenas uma fenda. Sem olhar, sem atenção, sem consciência.
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