quinta-feira, 22 de junho de 2017

TORQUATO NETO

Poema do Aviso Final

É preciso que haja alguma coisa
alimentando o meu povo;
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança.
É preciso que alguma coisa atraia
a vida
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
a abrirá caminhos.
É preciso que haja algum respeito,
ao menos um esboço
ou a dignidade humana se afirmará
a machadadas.



HERMETO PASCOAL

Lagoa da Canoa ou Olho d'Água Grande, 22 de junho de 1936


Hermeto Pascoal é um compositor arranjador e multi-instrumentista brasileiro (toca acordeão, flauta, piano, saxofone, trompete, bombardino, escaleta, violão e diversos outros instrumentos musicais).


Os sons da natureza o fascinaram desde pequeno. A partir de um cano de mamona de jerimum (abóbora), fazia um pífano e ficava tocando para os passarinhos. Ao ir para a lagoa, passava horas tocando com a água. O que sobrava de material do seu avô ferreiro, ele pendurava num varal e ficava tirando sons. Até o acordeão de 8 baixos de seu pai, de sete para oito anos, ele resolveu experimentar e não parou mais. Dessa forma, passou a tocar com seu irmão mais velho José Neto, em forrós e festas de casamento, revezando-se com ele no acordeão e no pandeiro.

Mudou-se para o Recife em 1950, e foi para a Rádio Tamandaré. De lá, logo foi convidado, com a ajuda de Sivuca (acordeonista conhecido), para integrar a Rádio Jornal do Commercio, onde José Neto já estava. Formaram o trio O Mundo Pegando Fogo e, segundo Hermeto, ele e seu irmão estavam apenas começando a tocar acordeão, ou seja, eles só tocavam o acordeão de 8 baixos até então.

Porém, por não querer tocar pandeiro e sim acordeão, foi mandado para a Rádio Difusora de Caruaru, como refugo, pelo diretor da Rádio Jornal do Commercio, o qual disse-lhe que "não dava para a música". Ficou nessa rádio em torno de três anos. Quando Sivuca passou por lá, fez muitos elogios sobre o Hermeto ao diretor dessa rádio, o Luís Torres, e Hermeto, por conta disso, logo voltou para a Rádio Jornal do Commercio, em Pernambuco, ganhando o que havia pedido, a convite da mesma pessoa que o tinha mandado embora. Ali, em 1954, casou-se com Ilza da Silva, com quem viveu 46 anos e teve seis filhos: Jorge, Fabio, Flávia, Fátima, Fabiula e Flávio. Foi nessa época também que descobriu o piano, a partir de um convite do guitarrista Heraldo do Monte, para tocar na Boate Delfim Verde. Dali, foi para João Pessoa, onde ficou quase um ano tocando na Orquestra Tabajara, do maestro Gomes.

Em 1958, mudou-se para o Rio de Janeiro para tocar acordeão no Regional de Pernambuco do Pandeiro (na Rádio Mauá) e, em seguida, piano no conjunto e na boate do violinista Fafá Lemos e, em seguida, no conjunto do Maestro Copinha (flautista e saxofonista), no Hotel Excelsior.

Atraído pelo mercado de trabalho, transferiu-se para São Paulo em 1961. Depois de um tempo, formou, juntamente com Papudinho no trompete, Edilson na bateria e Azeitona no baixo, o grupo Som Quatro . Foi aí que começou a tocar flauta. Com esse grupo gravou um LP. Em seguida, integrou o Sambrasa Trio, com Cleiber no baixo e Airto Moreira na bateria. No disco do Sambrasa Trio, Hermeto já registrou sua canção Coalhada.

Com o florescimento dos programas musicais de TV, criaram o Quarteto Novo, em 1966, sendo Hermeto no piano e flauta, Heraldo do Monte na viola e guitarra, Théo de Barros no baixo e violão e Airto Moreira na bateria e percussão. O grupo inovou com sua sonoridade refinada e riqueza harmônica, participando dos melhores festivais de música e programas da TV Record, representando o melhor da música brasileira. Nessa época, venceram um dos festivais com Ponteio, de Edu Lobo. Além disso, Hermeto ganhou várias vezes como arranjador. No ano seguinte gravou o LP Quarteto Novo, pela Odeon, onde registrou suas composições O Ovo e Canto Geral.


Em 1969, a convite de Flora Purim e Airto Moreira, viajou para os Estados Unidos e gravou com eles dois LP, atuando como compositor, arranjador e instrumentista. Nessa época, conheceu Miles Davis e gravou com ele duas músicas suas: Nem Um Talvez e Igrejinha.

Com o nome já reconhecido pelo talento, pela qualidade e por sua criatividade, tornou-se, juntamente com seu grupo, a atração de diversos eventos importantes, como o I Festival Internacional de Jazz, em 1978, em São Paulo, contando com a participação de Chick Corea , John McLaughlin e Stan Getz, que fizeram questão de dar uma "canja" com o grupo.

No ano seguinte, participou do '''Festival de Montreux''', na Suíça,onde seu trabalho com o grupo foi ovacionado, resultando num álbum duplo Hermeto Pascoal Montreux ao vivo, com participação do musico Nivaldo Ornellas. Seguiu para Japão, onde se apresentou com o grupo no festival Live Under the Sky, com a participação de Sadao Watanabe. Em 1979 Hermeto e grupo participam de uma tournê pela Argentina ( teatro Nacional e estádio "Obras sanitárias") e sul do Brasil, juntamente com Dizzy Gillespie. Tocou em vários festivais no Brasil , como no festival de verão do Guarujá no inicio de 1980.

Em março desse mesmo ano, os músicos Cacau de Queiroz e Nenê deixam o grupo e Hermeto renova sua formação;entram Marcio Bahia e Carlos Malta. Lançou o Cérebro Magnético em 1981 e multiplica suas apresentações pela Europa.


Em 1982, lançou, pela gravadora Som da Gente, o LP Hermeto Pascoal & Grupo. Em 1984, pelo mesmo selo, gravou o Lagoa da Canoa, em que registrou pela primeira vez Som da Aura com os locutores esportivos Osmar Santos e José Carlos Araújo. Esse disco também foi em homenagem à sua localidade natal, que se elevou, então, à categoria de município e conferiu-lhe o título de "cidadão honorário". Em 1986, o Brasil Universo, também com seu grupo.

Compôs ainda a Sinfonia em Quadrinhos, apresentando-se com a Orquestra Jovem de São Paulo. Em seguida, foi para Copenhague, nde lançou a Suíte Pixitotinha, que foi executada pela orquestra sinfônica local, em concerto transmitido via rádio para todo o Rio de Janeiro.

Em 1987, lançou mais um LP, Só Não Toca Quem Não Quer, em que homenageia jornalistas e radialistas como reconhecimento pelo seu apoio ao longo da carreira. Em 1989, fez seu primeiro disco de piano solo, o LP duplo Por Diferentes Caminhos.

Em 1992, já pela Philips, gravou com seu grupo o Festa dos Deuses. Depois do lançamento, viajou à Europa para uma série de concertos na Alemanha, na Suíça, na Dinamarca, na Inglaterra e em Portugal.

Em março de 1995, apresentou uma sinfonia no Parque Lúdico do Sesc Itaquera, em São Paulo, utilizando os gigantescos instrumentos musicais do parque. No mesmo ano foi a convite da Unicef para Rosário (Argentina), onde se apresentou para duas mil crianças, sendo que seu grupo entrou para tocar dentro da piscina montada no palco a pedido dele.

Em 1999 lançou o CD Eu e Eles, primeiro disco do selo Mec, no Rio de Janeiro. Neste CD produzido por seu filho Fábio Pascoal, Hermeto toca todos os instrumentos. Em 2003 lançou, com seu grupo, o CD Mundo Verde Esperança, também produzido por Fábio.

Em outubro de 2002, durante uma oficina em Londrina, conheceu a cantora Aline Morena e a convidou para se apresentar no dia seguinte com o seu grupo em Maringá. Em seguida ela o acompanhou ao Rio de Janeiro e, no fim de 2003, Hermeto passou a residir com ela em Curitiba. Assim, passou a dar-lhe noções de viola caipira, piano e percussão e, em março de 2004 estreou no Sesc Vila Mariana a sua mais nova formação: o duo Chimarrão com Rapadura (gaúcha com alagoano), formado por Hermeto e Aline Morena.

Em abril de 2004, embarcou para Londres para o terceiro concerto com a big band local. Em seguida, realizou mais alguns espetáculos solo em Tóquio e Quioto.

Em 2005 gravou o CD e o DVD Chimarrão com Rapadura com Aline Morena, além de realizar duas grandes turnês com seu grupo por toda a Europa. O CD e o DVD de Hermeto Pascoal e Aline Morena foram lançados de maneira totalmente independente em 2006.

Atualmente, Hermeto Pascoal apresenta-se com cinco formações: Hermeto Pascoal e Grupo, Hermeto Pascoal e Aline Morena, Hermeto Pascoal Solo, Hermeto Pascoal e Big Band e Hermeto Pascoal e Orquestra Sinfônica.

Lançou em 2010 o CD Bodas de Latão, em duo com Aline Morena, comemorando sete anos de união na vida e na música. Esse CD contém duas faixas multimídia.



Fotografias de Ricardo Silva


quarta-feira, 21 de junho de 2017

MACHADO DE ASSIS


A PALMEIRA


Como é linda e verdejante 
Esta palmeira gigante 
Que se eleva sobre o monte! 
Como seus galhos frondosos 
S’elevam tão majestosos 
Quase a tocar no horizonte! 

Ó palmeira, eu te saúdo, 
Ó tronco valente e mudo, 
Da natureza expressão! 
Aqui te venho ofertar 
Triste canto, que soltar 
Vai meu triste coração. 

Sim, bem triste, que pendida 
Tenho a fronte amortecida, 
Do pesar acabrunhada! 
Sofro os rigores da sorte, 
Das desgraças a mais forte 
Nesta vida amargurada! 

Como tu amas a terra 
Que tua raiz encerra, 
Com profunda discrição; 
Também amei da donzela 
Sua imagem meiga e bela, 
Que alentava o coração. 

Como ao brilho purpurino 
Do crepúsc’lo matutino 
Da manhã o doce albor; 
Também amei com loucura 
Ess’alma toda ternura 
Dei-lhe todo o meu amor! 

Amei!... mas negra traição 
Perverteu o coração 
Dessa imagem da candura! 
Sofri então dor cruel, 
Sorvi da desgraça o fel, 
Sorvi tragos d’amargura!

........................................ 

Adeus, palmeira! ao cantor 
Guarda o segredo de amor; 
Sim, cala os segredos meus! 
Não reveles o meu canto, 
Esconde em ti o meu pranto 
Adeus, ó palmeira!... adeus!



*A FRANCISCO GONÇALVES BRAGA
RJ, 6 jan. 1855 O.D.C.



HÄXAN

A FEITIÇARIA ATRAVÉS DOS TEMPOS

Visão histórica e quase documental, dividida em sete capítulos, da história da bruxaria e forma como o homem tem tratado o assunto. Apresenta tanto fontes literárias com descrições do que se pensava ser a bruxaria e suas ligações demoníacas, como dramatizações, quer do que se julgava ser a atividade das bruxas, como o modo como a inquisição lidava com as pessoas acusadas de bruxaria. Por fim faz-se uma analogia com casos modernos de histeria, cujos sintomas se podem relacionar com aquilo que antigamente se julgava serem sinais do demônio.

Produção:

Título original: Häxan; Produção: Aljosha Production Company / Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1922; Duração: 105 minutos; Distribuição: Universum Film (UFA) (Alemanha); Estreia: 18 de Setembro de 1922 (Suécia).

Equipa técnica:

Realização: Benjamin Christensen; Produção: Benjamin Christensen; Argumento: Benjamin Christensen; Fotografia: Johan Ankerstjerne [preto e branco]; Montagem: Edla Hansen; Direcção Artística: Richard Louw.

Elenco:

Benjamin Christensen (O Diabo), Ella La Cour (Feiticeira Karna), Emmy Schønfeld (Assistente de Karna), Kate Fabian (Velha Ama), Astrid Holm (Anna), Oscar Stribolt (Monge Gordo / Médico), Wilhelmine Henriksen (Apelone), Elisabeth Christensen (Mãe de Anna), Karen Winther (Irmã de Anna), Maren Pedersen (Maria, a Fiandeira), John Andersen (Padre Henrik, Inquisidor Chefe), Elith Pio (Johannes, Jovem Monge da Inquisição), Aage Hertel (Juiz da Inquisição), Ib Schønberg (Juiz da Inquisição), Holst Jørgensen (Peter Titta ou Ole Kighul), Clara Pontoppidan (Freira), Elsa Vermehren (Freira), Alice O’Fredericks (Freira), Gerda Madsen (Freira), Karina Bell (Freira), Tora Teje (Histérica Moderna), Poul Reumert (Joalheiro), H.C. Nielsen (Assistente do Joalheiro), Albrecht Schmidt (Psiquiatra), Knud Rassow (Anatomista), Ellen Rassow (Criada), Frederik Christensen (Cidadão), Henry Seemann (Cidadão).



Análise:

Numa altura em que o cinema dinamarquês tinha já perdido o fulgor de outros tempos, tanto a nível artístico, como por menor pujança das suas produtoras (nomeadamente a Nordisk Film, que durante a Primeira Guerra Mundial perdeu a sua importância internacional), alguns dos seus melhores realizadores filmavam no estrangeiro. Um deles, Benjamin Christensen, que em breve iria emigrar para os Estados Unidos, filmou ainda em solo dinamarquês, embora com financiamento e produção suecos, aquela que seria considerada a sua obra-prima.

“A Feitiçaria Através dos Tempos” é um projeto de grande fôlego, tendo-se tornado o mais dispendioso filme escandinavo até então. Nele Christensen, que o escreveu (sozinho, depois de os peritos consultados recusarem ajuda por serem contra o filme) e também interpretou, faz uma investigação histórica sobre o tema da feitiçaria, depois de ler o manual “Malleus Maleficarum” e incidindo particularmente no mundo germânico medieval. Filmando integralmente em estúdio, Christensen dá-nos um filme que espanta pela novidade quer temática quer estética, quer ainda pela abordagem baseada no rigor e detalhe quase formais trazidos das fontes históricas consultadas.

Apresentando o seu filme como um documentário com cenas encenadas, Benjamin Christensen vai mesmo ao ponto de nos citar as suas fontes, mostrando páginas de livros e incluindo inserts de ilustrações antigas, nas quais vai apontando detalhes ao mesmo tempo que as descreve, como se estivéssemos numa aula. Dessas lições passamos à encenação, a qual abarca tanto retratos históricos de desconfianças que levam a denúncias, capturas e julgamentos de mulheres que se crê serem bruxas, como também a sequências fantásticas, ilustrando aquilo que os livros ensinavam ser a bruxaria.

Com essas três vertentes a ocupar o grosso do filme (o qual se divide em sete capítulos), Christensen consegue uma enorme intensidade, beleza estética e riqueza técnica. Se a crueza com que o confronto entre a religião e superstição se dá com as supostas bruxas nos choca, não menos marcantes são as sequências fantásticas em que testemunhamos os recontros do Diabo com as suas discípulas. Com a película tingida de tons avermelhados, Christensen filma a noite (e curiosamente, à noite, por uma questão de encontrar o ambiente certo), em cenários de penumbra, já com influência do chiaroscuro do Expressionismo Alemão, com uma particular incidência no rosto humano (algo aperfeiçoado por Dreyer nos seus filmes seguintes), um imenso uso do grotesco (de rostos, gestos, acontecimentos e cenografia), que nos fazem sentir estar numa pintura de Bosch. Técnicas como dupla-exposição, dissolvências, movimentos reversos, animação stop-motion, bem como o uso de esqueletos animais e humanos, a personificação do demônio, nudez, cenas de marcado teor sexual (como uma simulação de masturbação por parte do Diabo), um polemico pisar de cruzes num Sabbath, a referência explícita à tortura e detalhes tão macabros o arrancar de um dedo de um corpo já putrefacto, ajudaram a tornar “A Feitiçaria Através dos Tempos” uma obra única e chocante no seu tempo.

O filme termina com um último quadro, contemporâneo, onde em jeito moralista, se mostra como a ciência já identificou tantos sintomas como causados por doenças mentais, em particular a histeria. Mostra-se então, comparativamente, como esses sintomas (sonambulismo, obsessões, insensibilidade táctil, cleptomania, etc.) foram em tempos sinal de marcas do demônio, e são agora (por agora entenda-se 1922) motivo de tratamento médico. No entanto, se antigamente o resultado eram problemas com a Igreja, e mortes na fogueira, agora são problemas com a autoridade, e internamentos em hospícios desumanos, mostrando que há ainda um longo caminho a percorrer.

Como não podia deixar de ser, “A Feitiçaria Através dos Tempos” passou por muitos problemas com a censura, tendo algumas das suas cenas mais ousadas sido cortadas nas versões originais. Tal resultou em versões truncadas. Com o filme a cair em domínio público, este foi replicado para venda em VHS ou DVD, por vezes a partir de más cópias e montagens duvidosas. Felizmente o filme tem sido motivo de vários restauros e reposições, a primeira das quais ainda em 1941, com uma nova banda sonora, composta por Emil Reesen. Uma versão mais curta foi apresentada 1968, com música de Daniel Humair, interpretada por um quinteto de jazz, e narração de William S. Burroughs. A versão mais comum hoje, feita em 2001 para DVD, com montagem que respeita a visão de Christensen, tem como banda sonora um misto de peças de Schubert, Gluck, e Beethoven, que tentam replicar as peças escolhidas pelos cinemas em 1922, e que receberam a a aprovação do realizador. A mais recente restauração data de 2006, feita pelo Svenska Filminstitutet, com música de Matti Bye. Alguns DVDs de 2007 acrescentam versões do compositor inglês Geoff Smith e do grupo de música eletronica Bronnt Industries Kapital.

Também o grupo de rock progressivo francês Art Zoyd (1997), o compositor islandês Barði Jóhannsson (2006) e o ensemble norte-americano The Rats & People Motion Picture Orchestra (2010) comporiam bandas sonoras independentes para o filme.




FONTE: 
A JANELA ENCANTADA

sábado, 17 de junho de 2017

JEFF HEALEY

As The Years Go Passing By



sexta-feira, 16 de junho de 2017

PAULO LEMINSKI


um bom poema


um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


SOLDA

CÁUSTICO



SOLDA CÁUSTICO
:
http://cartunistasolda.com.br/

terça-feira, 13 de junho de 2017

DISCOTECA BÁSICA

CAETANO VELOSO
CAETANO VELOSO (1969)


por  Marcos Sampaio

A capa branca do disco de Caetano Veloso lançado em 1969, apesar da simplicidade, é um enigma digno dos faraós. Em primeiro lugar é sim uma homenagem, como tantas outras que foram feitas, ao álbum lançado um ano antes pelos Beatles. No lugar de um projeto gráfico com fotos ou desenhos, os rapazes de Liverpool enxugaram tudo e colocaram um imenso e absoluto branco na capa e contracapa do trabalho. No caso do baiano, para se diferenciar dos ídolos roqueiros, ele acrescentou apenas sua assinatura, e logo o disco ganhou o apelido de “o disco da assinatura”. Apesar de toda a paz estampada naquele mar de brancura, o que inspira Caetano a fazer aquele trabalho são seus tempos bicudos de uma ditadura brasileira, que logo o manteria exilado em Londres. Dessa forma, a ausência de cores acaba demonstrando também a saudade e o vazio em que o artista se encontrava, longe da sua amada Bahia. Já sentindo falta da família, o poeta abre o disco homenageando sua irmã Irene, contrastando a alegria do sorriso com uma despedida forçada. Mais melancólico, ele segue o disco falando em partidas e despedidas. Marinheiro só, cântico tradicional, vem cantada em inglês e mistura o recado direto com sua futura língua. A barroca Carolina, de Chico Buarque, fica ainda mais triste em sua janela quando cantada pelas vogais abertas do filho da Dona Canô. Triste ainda como as Chuvas de Verão, de Fernando Lobo. Em tom fadista, Os Argonautas recria o clima dos portugueses que partiram em busca de novas terras, como se o baiano quisesse falar que estava agora fazendo o caminho inverso. Mas como os contrastes daquela capa aparentemente sem nada, a tristeza do disco de Caetano se dissipa na última faixa, Alfômega. Suingada, funkeada e animada, a despedida do artista é em clima de festa, por que atrás desse bloco só não vai quem já morreu.




NELSON PADRELLA


Acordar hoje e ver na porta de casa as flores, velas e o champanhe não tem preço! Me senti muito amado… Só não entendi o frango e a farofa.

BLOG DO ZÉ BETO: http://www.zebeto.com.br/

segunda-feira, 12 de junho de 2017

FERNANDO PESSOA


Do livro do Desassossego

Nada me comove que se diga, de um homem que tenho por louco ou néscio, que supera a um homem vulgar em muitos casos e conseguimentos da vida. Os epiléticos são, na crise, fortíssimos; os paranoicos raciocinam como poucos homens normais conseguem discorrer; os delirantes com mania religiosa agregam multidões de crentes como poucos (se alguns) demagogos as agregam, e com uma força íntima que estes não logram dar aos seus sequazes. E isto tudo não prova senão que a loucura é loucura. Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores, que a vitória no meio dos desertos, cheia da cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada. 


sábado, 10 de junho de 2017

ADAM WEST

William West Anderson

Walla Walla, 19 de setembro de 1928 - Los Angeles, 09 de junho de 2017.
Adam West nasceu em 19 de setembro de 1928, em Walla Walla, filho de Otto West Anderson (1903 – 1984) e Audrey V. Speer (1906–69). Aos 10 anos Adam colecionava quadrinhos e o personagem Batman o impressionou bastante. Quando sua mãe casou novamente, desta vez com Dr. Paul Flothow, mudaram-se para Seattle junto com seu irmão mais novo, John. Aos 14 anos, Adam entrou na Lakeside School e em seguida cursou o Whitman College, formando-se em duas áreas, Literatura e Psicologia. Durante seu último ano na faculdade, casou-se com Billie Lou Yeager.
Adam começou a trabalhar como DJ numa estação de rádio enquanto fazia uma pós graduação em Stanford. Dispensado do exército, passou dois anos tentando colocar uma estação de TV militar no ar - uma em San Luis Obispo, Califórnia e outra na área militar Fort Monmouth, Condado de Monmouth, Nova Jérsei. Nesse meio tempo, viajou pelo mundo com a esposa até que parou no Havaí para estrelar um programa infantil chamado The Kini Popo Show in Hawaii. Nessa época divorciou e em seguida casou com uma nativa chamada Frisbie Dawson, com quem teve uma filha em 1957 e um filho no ano seguinte - Jonelle e Hunter. Esse segundo casamento durou até 1962.

Em 1959, Adam foi para Hollywood, adotou o nome artístico de Adam West e conseguiu pequenos papéis em filmes de faroeste.

Após sete anos em Tinseltown, ele finalmente conseguiu um papel que o levou à fama. Em 1966, estrelou como Batman, pela rede ABC.

Em 1972 ele casou com Marcelle Tagand Lear com quem teve dois filhos; Nina em 1976 e Perrin em 1979. Em 1994 lançou uma auto biografia chamada De Volta a Bat-Caverna.

Morreu em 9 de junho de 2017, aos 88 anos, de leucemia.





FONTE : WIKIPÉDIA

sexta-feira, 9 de junho de 2017

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE

A monster calls, 2016 
(Apaches Entertainment, 108min)
Direção: J.A. Bayona. Roteiro: Patrick Ness, romance homônimo de sua autoria, ideia de Siobhan Dowd. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Jaume Martí, Bernat Vilaplana. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Steven Noble. Direção de arte/cenários: Eugenio Caballero/Pilar Revuelta. Produção executiva: Álvaro Augustin, Ghislain Barrois, Sandra Hermida, Jonathan King, Enrique López Lavigne, Patrick Ness, Bill Pohlad, Jeff Skoll, Patrick Wachsberger. Produção: Belén Atienza. Elenco: Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Liam Neeson, Toby Kebell, Geraldine Chaplin. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Aplaudido pelo mundo já em seu primeiro longa-metragem - o assustador "O orfanato" (2007) - e posteriormente taxado de "o Steven Spielberg espanhol" por causa do sucesso de "O impossível" (2012), que deu uma indicação ao Oscar de melhor atriz à Naomi Watts, J.A. Bayona volta a mostrar sensibilidade na manipulação das emoções humanas (e principalmente infantis) em "Sete minutos depois da meia-noite", um impressionante e comovente drama de fantasia que, assim como "O labirinto do fauno" (2006), do mexicano Guillermo Del Toro, é uma ode à força da imaginação contra as tragédias do dia-a-dia. Ao contrário do premiado filme de Del Toro, porém, o filme de Bayona não fez tanto barulho nas bilheterias (cobriu seu orçamento apenas com a ajuda da arrecadação mundial) e foi solenemente ignorado pelo Oscar. Tal descaso, no entanto, não reflete nem de longe sua imensa qualidade: "Sete minutos depois da meia-noite" é um dos mais inteligentes e criativos filmes dos últimos anos, um devastador drama sobre amadurecimento disfarçado de aventura juvenil.

Inspirado em um livro infantil iniciado por Siobhan Dowd e finalizado por Patrick Ness após a morte do autor original, "Sete minutos depois da meia-noite" é um espetáculo visual de primeira linha à serviço de uma história fascinante e avassaladora, que trata de assuntos espinhosos com o verniz da fantasia e da imaginação pueril. O protagonista é Connor O'Malley (Lewis MacDougall), um menino irlandês de doze anos que está passando pelo pior período de sua curta existência: sua mãe (Felicity Jones, de "A teoria de tudo") está enfrentando um câncer terminal que a impede de conviver com ele de modo ideal; seu pai (Toby Kebell, de "Black Mirror") mora nos EUA com a nova família e não tem planos de incluí-lo em sua vida; sua avó (Sigourney Weaver), com quem não tem a melhor das relações, quer obrigá-lo a morar com ela; e na escola, ele sofre constante bullying por parte dos colegas mais fortes. Em uma noite, exatamente às 12:07, Connor recebe a visita de um monstro gigantesco em formato de árvore que avisa que irá visitá-lo sempre no mesmo horário para lhe contar três histórias que poderão lhe ajudar nessa fase da vida. O monstro completa o aviso informando-o também de que a última história será de sua autoria - e deverá explicar os motivos de seus pesadelos.

De forma brilhante e surpreendente, Bayona transforma um conto de solidão e trauma em um show de efeitos especiais que, ao invés de eclipsar a força da história, sublinha seu tom lúdico e fantástico. As narrativas do monstro são apresentadas em formato de animação, mas nada de esperar a estética Pixar ou Disney: o cineasta utiliza de cada uma das fábulas da apavorante criatura (com a voz de Liam Neeson e feições que vão se tornando mais humanas conforme a trama avança) para analisar, de maneira poética mas bastante contundente, todos os medos e sentimentos de Connor (e, por conseguinte, de boa parte da plateia, adulta ou não). Ao questionar fundamentos essenciais, como a bondade, a compaixão e a raiva, o roteiro do mesmo Patrick Ness que terminou o livro vai fortalecendo o caráter de seu protagonista e preparando-o para enfrentar o maior desafio de sua vida, que é encarar a morte da mãe e a maturidade precoce. É admirável os meios encontrados por Bayona e sua equipe em equilibrar tão organicamente a vida real de Connor e sua imaginação sem deixar que nenhuma das linhas narrativas sobreponha-se à outra - e mais importante ainda, que consiga fazer com que ambas se conectem tão naturalmente até o final, de uma tristeza profunda, mas dono de uma beleza incontestável.

Contando com um excepcional ator juvenil no papel principal - Lewis McDougall, que também participou do exótico "Peter Pan" (2015), de Joe Wright - e veteranos competentes entre os coadjuvantes - como Sigourney Weaver como sua irascível avó e Geraldine Chaplin, uma espécie de amuleto de sorte do diretor, tendo feito pontas em seus três trabalhos até aqui - "Sete minutos depois da meia-noite" surge como um dos melhores filmes de sua temporada. Com um roteiro de ritmo preciso e equilibrado, um visual acachapante e o tom emocional acertadamente adequado a uma história que mira em vários tipos de plateia, o filme de Bayona é um triunfo em todos os aspectos, capaz de cativar qualquer espectador disposto a mergulhar em uma narrativa repleta de simbolismos e metáforas que, longe de aborrecer ou confundir, apenas valorizam a beleza de suas intenções e de sua realização. Imperdível!

FONTE

terça-feira, 6 de junho de 2017

quinta-feira, 1 de junho de 2017

MILLÔR FERNANDES


Pensar Custa


Pensar é a todo momento e a todo custo. Pensar dói, cansa e só traz aborrecimentos. Melhor é não pensar. Mas pensar não é facultativo. Se o cérebro, a mínima parte dele que seja, deixa de estar alerta por um momento, penetram lá, como parasitas difíceis de erradicar, «ideias» vindas da imprensa, do rádio, da televisão, da propaganda geral, dos produtos em série, do consumo degenerado, dos doutores em lei, arte, literatura, ciência, política, sociologia. Essa massa de desinformação, não só inútil como nociva, nos é, aliás, imposta de maneira criminosa nos primeiros anos de nossa vida. E se, algum dia, chegamos a pensar no verdadeiro sentido do termo, todo o restante esforço da existência é para nos livrarmos de uma lamentável herança cultural. Pois, infelizmente, o cérebro humano é um dos poucos órgãos do corpo que não têm uma válvula excretora. E as fezes culturais ficam lá, nos envenenando pelo resto da vida, transformando o mais complexo e mais nobre órgão do corpo numa imensa fossa, imunda e fedorenta. Um lamentável erro da Criação.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

FRANK ZAPPA

Black Napkins 
Frank performing with The Mike Douglas Orchestra
Very unique performance. October, 28, 1976

CANNES CONTRA NETFLIX



A mudança nos modos de consumo é incontrolável, mas a criação merece uma política de apoio na qual as plataformas pagas também sejam aliadas.

A guerra estourou entre o Festival de Cannes, um ícone da indústria cultural francesa, e a Netflix, a plataforma norte-americana de cinema online com 100 milhões de clientes em todo o mundo. Nesta 70a edição, o evento anunciou uma mudança nas regras do jogo: a partir de 2018, os filmes que não estrearem em salas francesas não podem competir pela Palma de Ouro. Hollywood impõe algo parecido: os candidatos ao Oscar de melhor filme devem ter sido exibidos pelo menos sete dias seguidos, três vezes por dia, nos cinemas de Los Angeles. É a resposta à Netflix, que depois de concorrer em Berlim e Veneza —que permitiram isso— chegou a Cannes com dois filmes de produção própria que não vai exibir na França.

O próprio Pedro Almodóvar, presidente do júri, cerrou fileiras com o festival: “A Netflix é uma nova plataforma que oferece conteúdo pago, o que em princípio é bom e enriquecedor. No entanto, esta nova forma de consumo não pode tentar substituir as já existentes. Me parece um enorme paradoxo dar uma Palma de Ouro e qualquer outro prêmio a um filme que não pode ser assistido na tela grande”.

Alguns especialistas situaram o debate no terreno da qualidade: da originalidade do produto de autor frente à padronização que pode significar estar nas mãos de uma multinacional que produz ao mesmo tempo em que exibe; e da defesa de uma experiência de silêncio e concentração diante da grande tela que, no entanto, está diminuindo em relação a outras formas de consumo. O cinema no computador, televisor ou celular é cada vez mais a opção preferida por muitos espectadores, mesmo pagando.

O debate, no entanto, é mais amplo e tem a ver com a defesa de uma identidade cultural e de uma indústria em transformação. A própria eleição de um presidente, Macron, capaz de salpicar seus discursos de citações de pensadores é paradigma de uma França que colocou a cultura e a educação em terreno protegido para além dos partidos.

Sarkozy foi defensor da luta contra a pirataria. E Hollande garantiu os gastos com educação e cultura em plena onda de cortes. Na Espanha, enquanto isso, o Governo aumentou o IVA cultural e foi incapaz de proteger a indústria da pirataria. A mudança nos modelos de consumo cultural é incontrolável e as plataformas de pagamento só podem ser bem-vindas, mas a criação merece uma política de apoio por parte do Estado em que a Netflix, assim como outras grandes empresas, pode e deve ser também aliada dos atores culturais.


FONTEEl País

quarta-feira, 24 de maio de 2017

SOLDA

CÁUSTICO

































FERNANDO PESSOA


Do Livro do Desassossego 



Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei. No meu sangue corre até a menor das paisagens futuras, e a angústia do que terei que ver de novo é uma monotonia antecipada para mim.

E debruçado ao parapeito, gozando do dia, sobre o volume vário da cidade inteira, só um pensamento me enche a alma — a vontade íntima de morrer, de acabar, de não ver mais luz sobre cidade alguma, de não pensar, de não sentir, de deixar atrás, como um papel de embrulho, o curso do sol e dos dias, de despir, como um traje pesado, à beira do grande leito, o esforço involuntário de ser.


ANTIGOS POSTAIS ERÓTICOS







sexta-feira, 19 de maio de 2017

NEIL YOUNG & CRAZY HORSE

Down By the River (Live at Farm Aid 1994)

*Neil Young and Crazy Horse perform "Down By the River" live at the Farm Aid concert in New Orleans, Louisiana on September 18, 1994. Farm Aid was started by Willie Nelson, Neil Young and John Mellencamp in 1985 to keep family farmers on the land and has worked since then to make sure everyone has access to good food from family farmers. Dave Matthews joined Farm Aid's board of directors in 2001.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

ALMAS NUAS


de
  Oscar Wilde  em  O Retrato de Dorian Gray


Influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são naturais. Os seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se o eco de uma música alheia, o ator de um papel que não foi escrito para ele. O objetivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmos. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. A coragem desapareceu da nossa raça e se calhar nunca a tivemos realmente. O temor à sociedade, que é a base da moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam.


BLOG DO ZÉ BETOhttp://www.zebeto.com.br/


DRAN


ZÉ DA SILVA



Não desconfiava, apesar de ter sido alertado desde pequeno. Um dia foi visto enchendo o prato com macarrão de uma forma tal que a comida transbordava o prato e ocupava um grande espaço na mesa. Ele comeu tudo – de fora pra dentro. Numa banca de produtos chineses comprou um óculos com quatro graus para leitura e passou a usar, sem ter problema algum de visão. O enxoval do filho estava comprado há tempos, mas ele nem namorada tinha. Pagou adiantado o próprio velório e o crematório e encomendou algumas coroas de flores. Não conseguia ler duas linhas de qualquer texto e seu principal passatempo na tv era zapear constantemente e a uma velocidade espantosa. Nunca andava – corria. A respiração sempre acelerada. Teve o piripaque aos 20 anos. Na UTI, entubado, recebeu a visita de um amigo de infância, que lhe falou ao ouvido: “Não sei o porquê da pressa. Nós vamos e a terra fica”. Morreu logo que o colega saiu. Queria chegar ao céu o mais rapidamente possível.




FOTOGRAFIA

VIVIAN MAIER








quarta-feira, 17 de maio de 2017

DISCOTECA BÁSICA


The Stranglers
Black and White (1978)


(Edição 100,Novembro de 1993)

Tenho a mania de fuçar nos sebos de discos usados. E também de revirar ofertas nas chamadas "lojas populares". É um hábito antigo, que já me rendeu descobertas inesperadas. A inaugural foi nos idos de 74, num desses "saldões". Entre duplas sertanejas e galãs bregas, encontrei duas coletâneas de Velvet Underground! Eram da série Pop Giants (com medonhas capas-padrão), do selo Polyfar - da atual PolyGram. Um "encalhe" que valia outro, pois até então nenhum outro trabalho do grupo tinha sido editado no Brasil.
Dei de cara com achado semelhante alguns anos depois, ao me deparar outras duas jóias raras, disfarçadas de artigos em liquidação: "No More Heroes" e, especialmente, "Black And White", do quarteto inglês The Stranglers - que não se sabe pôr que cargas d'água foram lançados aqui pelo selo Copacabana, logo após as edições originais. O som dos caras já impressionava no primeiro disco, que tinha como mote a iconoclastia da faixa-título (que, citando de Leon Trotsky a Sancho Pança, proclamava não haver mais heróis), mas no álbum posterior era ainda mais poderoso.
Na época, só havia edições nacionais de alguns poucos discos de emergente punk rock (a coletânea bazuca "A Revista Pop Apresenta O Punk Rock", "Never Mind The Bollocks", dos Sex Pistols, The Clash com seu primeiro álbum), mas os "estranguladores" soavam diferentes. Ao ataque punk eles uniam um som depurado, em que a simplicidade do vocal e da guitarra de Hugh Corwell somava-se às firulas tecladisticas bem dosadas de Dave Greenfield, ao baixo de Jean-Jacques Burnel e à bateria de Jet Black embaçando a moldura sonora.
Os "homens de negro" (como eles se autodefiniam) eram umas figuras um tanto bizarras. Pareciam estar no lugar certo e na hora certa - ou melhor, chegaram antes, pois seu álbum de estréia ("The Stranglers IV: Rattus Norvegicus") era anterior à explosão do punk britânico. Porém, eles tinham a fachada errada, mesmo naqueles tempos da anarquia.
Para começar, se o perfil dos punks era notoriamente juvenil, eles eram "velhões": Cornwell havia desistido de ser professor de Química para tornar-se guitarrista e "junkie" em tempo integral; Burnel (músico de ascendência francesa, apesar de ter nascido em Londres) também tinha largado seu curso de História, enquanto Jet Black era sorveteiro antes de manejar as baquetas. Através de um anúncio na Melody Maker (que requeria um tecladista para um grupo de "soft rock"), eles entraram em contato com Greenfield. O quarteto tinha uma formação esquisita, mas que acertou na mosca com a combinação musical. tanto que foram incorporados prontamente ao movimento punk, apesar de freqüentemente acusados de sexistas e de machistas - por colocarem strippers girl em seus shows, por exemplo.
A música era agressiva nas cordas, nas letras e nos vocais. Mas ao mesmo tempo eles se permitiam fazer difressões psicodélicas à La The Doors ou até mesmo a pequenos toques de música clássica, dados pelo tempero dos teclados. Esta mistura chegou em ponto de bala no terceiro álbum, "Black And White". Com algumas das canções mais emblemáticas do grupo ("Nice'n'Sleazy", "Threatened", "Toiler On The Sea"), o disco ainda tratava com cinismo e deboche temas militaristas ("Tank", "Curfew"), consumismo ("Outside Tokyo") e até o pretenso "chauvinismo" deles - "Do You Wanna", "Death And Night And Blood (Yukio)". Tudo disposto em instantâneos de luz e sombra, num contraste que era sugerido pela própria apresentação do álbum. Outros trabalhos musicalmente mais sofisticados do grupo surgiriam depois - como os álbuns "(The Gaspel According To) The Meninblack", "La Folie", "Feline" -, todos muito bons, é verdade, mas sem a mesma pegada de "Black and White".
Depois, o grupo teve êxitos esparsos, até sofrer pesada baixa com a saída de Cornwell, em 91. Mas não importa: o retrato definitivo dos "estranguladores" já tinha sido tirado em 78, em preto & branco.


Celso Pucci

FONTE: http://rateyourmusic.com/list/Mhrr/discoteca_basica_revista_bizz/2/

terça-feira, 16 de maio de 2017

FRANK MILLER

O homem das sombras



O mundo das histórias em quadrinhos é marcado por nomes que transformam ideias em sagas, aventuras e lendas, tanto aqueles que contam essas histórias, como os que as transformam em imagens. E algumas vezes, pessoas nascem como o dom de escrever e desenhar suas próprias histórias, como é o caso de um dos maiores artistas de todos os tempos, no que se refere às HQs, Frank Miller.

Mestre do traço e da arte de narrar histórias, Frank Miller trabalhou nas maiores empresas de quadrinhos do mundo, construindo uma obra marcada por sombras, violência e crítica social, tudo com muito contraste entre luz e sombras, quase sempre, manchadas de vermelho sangue. E quando as páginas dos quadrinhos pareciam pequenas para o talento de Miller, ele resolveu se aventurar também nas telas do cinema.

Controverso, polêmico, arrogante, genial, mestre, um verdadeiro artista. Adepto de novos formatos e duro opressor de regras e padrões. Combatido por alguns, adorado por muitos. Assim é Frank Miller, um homem que dedica a sua vida a contar histórias, a mostrar a jornada de pessoas, a reviver conceitos e deturpá-los para que entendamos o mínimo de quem somos.

Esta é a história de um dos maiores artistas de quadrinhos de todos os tempos.

ORIGENS

Frank Miller nasceu em Olney, Maryland, no dia 27 de janeiro de 1957, e é filho de uma enfermeira e um carpinteiro/eletricista. Tem mais quatro irmãos.

Miller sempre foi apaixonado por cinema e adorava desenhar. Já aos seis anos, deu à mãe uma pilha de papeis para datilografia, dobrados na forma de gibis, coberta de desenhos feitos por ele e disse que aquilo era o que ele queria fazer pelo resto da vida. Ele mesmo diz que desenhar é sua maior paixão e que a cidade de Nova York sempre foi a sua grande inspiração, já que veio do interior e sempre sonhou em viver na maior cidade do mundo.

Frank Miller se sentava no topo do Empire State Building, num tempo em que não havia grades de proteção, e desenhava a cidade à sua frente. Fazia o mesmo com outros lugares, como a South Street Seaport, e registrava cada “respiro” da cidade viva, como mesmo a chamava. Nova York sempre foi a personagem mais retratada por Miller.

Nos anos 60, com a revolução dos quadrinhos estabelecida pela MARVEL, o jovem Miller viu que suas ideias poderiam se tornar realidade e que seu sonho de viver de quadrinhos poderia ser alcançado. Isso ainda levaria anos para acontecer, mas ele sabia que esse mercado abriria portas para pessoas como ele, cheias de ideias na cabeça e com modos próprios de mostrar aos outros essas ideias.

No início, os heróis da “grande galáxia MARVEL” fizeram com que Frank Miller, ainda adolescente, encontrasse uma fonte de expressão de suas próprias expectativas e frustrações, como as de todo jovem, sob a forma dos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, verdadeiros ídolos de gerações e gerações de fãs da mais pura aventura e entretenimento. As famílias poderiam se inspirar no “Quarteto Fantástico”, os adolescentes nerds poderiam ser um “Homem-Aranha” e as meninas poderiam ser fabulosas como a “Garota Marvel”. Tudo à volta teria na MARVEL a possibilidade de ser muito mais do que era. Os sonhos de qualquer adolescente, como Frank Miller, poderiam se tornar reais ao abrir um gibi da MARVEL.

A MARVEL trouxe aventura e imaginação para Frank Miller. Mas faltava algo mais para que suas histórias viessem a serem contadas de verdade, não apenas como simples desejos de um adolescente criativo. Esse “algo mais” viria sob a forma da obra de Will Eisner, um dos escritores e desenhistas de quadrinhos mais famosos e referenciais de todos os tempos.

Eisner, muito conhecido como o “criador do Spirit”, nasceu em Nova York em 1917 e faleceu na Flórida em 2005, ao longo de quase toda a sua vida, retratou a “Grande Maçã” sob a perspectiva de seus habitantes, personagens comuns como todos nós, mas que representam a mola mestra e a força vital de uma cidade. O elemento humano era fundamental para se contar uma boa história e mesmo que essa viesse acompanhada de humor e aventura, além de muita briga e confusão, era primordial que os personagens parecessem humanos para o leitor.


A obra de Will Eisner determinou a escolha de Miller pela realidade sobre o fantástico, valorizando os personagens humanos, seus conflitos e problemas acima dos desafios que tinham enfrentar quando vestiam os uniformes e saíam para combater o crime.

A partir disso, Miller desenvolveu seu estilo de narrativa, acrescentando elementos jornalísticos em meio às histórias, como por exemplo, a necessidade de tratar uma cena como um registro fotográfico ou sensível ao olhar, herança de outro mestre dos quadrinhos, Neal Adams, que revolucionou a indústria nos anos 70. Para Miller, um quadrinho não deveria ser apenas um desenho preenchido por palavras, mas uma autêntica cena de um fato de que estivesse ocorrendo em dado momento na história.

Outro artista importante na concepção visual e narrativa de Miller foi Jim Steranko, responsável por incorporar aos quadrinhos elementos da cultura pop e surrealismo em meados dos anos 60, dando às histórias uma dimensão intermediária entre o cotidiano da sociedade e os seus sonhos e desejos mais íntimos.

Unindo conceitos artísticos aos valores humanos e à realidade cotidiana e inserindo esses elementos ao vasto e incrível universo dos super-heróis coloridos e incansáveis na luta contra o mal, Frank Miller construiu uma carreira vitoriosa, marcada por altos e baixos, como suas próprias histórias. Começou como um garoto que adorava desenhar, se transformou num importante artista contador de histórias e ganhou poder e notoriedade como um dos nomes mais importantes na indústria dos quadrinhos. E seu talento o levou a novos rumos, como o cinema.

A história de Frank Miller merece ser conhecida pelos fãs de aventura. Como todos os grandes mestres dessa arte, há quem o defenda e quem o considera um “charlatão”. De qualquer forma, o nome Frank Miller é sinônimo de HQs e merece ser lembrado como um desbravador, um contador de histórias que ultrapassam as barreiras do tempo e que ainda são base para novas histórias a serem contadas. Sua importância como um homem que desafiou o sistema e quebrou padrões nos ensinou que o mais importante nesta vida é contar a história em que você acredita e nada mais.

Seja seguindo os passos de Eisner, seja construindo um universo próprio, Frank Miller é um nome de destaque na história dos quadrinhos. Para ele, quadrinhos são arte e a única forma de entretenimento que jamais se perderá ante a ação do tempo.


UMA LENDA DOS QUADRINHOS

Desde muito cedo, Frank Miller se interessava em contar histórias e desenhá-las, já que produzia em casa seus próprios fanzines, o que despertou o interesse de outras pessoas que se dedicavam a este tipo de mídia. O talento o tornou um valioso freelancer para diferentes editoras norte-americanas, desde menores, até as gigantes do mercado, como MARVEL e DC COMICS.

Miller começou sua carreira oficial na segunda metade dos anos 70, quando chegou à Nova York, a cidade que seria parte integrante de sua obra. Seus primeiros trabalhos foram artes em revistas como “Weird War Tales” (DC Comics), “Twilight Zone” (Gold Key) e “John Carter: Warlord of Mars” (MARVEL Comics), mas sem grande destaque perante o público e a crítica.

Começou a ganhar notoriedade na MARVEL quando ilustrou duas edições da revista “Peter Parker – The Spetacular Spider-Man”, mas precisamente os números 27 e 28. Na história, o personagem “Justiceiro” enfrentava o herói aracnídeo, inclusive, antecipando seus movimentos. O anti-herói da MARVEL se convence de que o “Amigo da vizinhança” não é mais um malfeitor como aqueles que enfrentava, e decide não matá-lo ao fim da história. Miller começava a dar seus primeiros passos na “Casa das Ideias” e na própria grande indústria dos quadrinhos em geral, ainda que fosse considerado por muitos como uma aposta.

Após o sucesso alcançado, Frank Miller foi convidado pelos executivos da MARVEL para assumir um de seus mais conhecidos heróis, mas que passava por uma má fase, o “Demolidor”, desenhando as histórias e mais tarde, escrevendo seus roteiros. Além disso, o jovem artista deveria substituir um dos grandes nomes dos quadrinhos, Gene Colan, a partir da edição 158, de maio de 1979. Ao lado do arte-finalista Klaus Janson, Miller desenvolveu uma das melhores fases do personagem, ressuscitando as vendas de sua revista. Foi durante esta fase, que Miller criou uma das personagens mais icônicas da MARVEL, a assassina ninja grega “Elektra Natchios”. O nome da personagem foi inspirado na personagem trágica de Sófocles, e nos quadrinhos representava segundo o próprio autor, o poder da mulher nas HQs, de forma que as histórias ganhassem uma aura mais real e sensual com personagens como essa, deixando de lado o padrão das “namoradas em perigo” ou das “heroínas em segundo plano”.

“Por que as namoradas dos super-heróis tinham que necessariamente serem normais?” Miller pensava que os super seres poderiam se relacionar com mulheres à sua altura, que tivessem na vida íntima e amorosa o mesmo desempenho que na luta contra o crime. Elektra representa esse pensamento do autor e uma virada radical no conceito de relacionamentos entre heróis nos quadrinhos.

Não demorou muito para que Miller assumisse também a função de escritor de suas histórias, o que naqueles tempos era algo comum, já que o grande número de publicações possibilitava a um artista apresentar as suas próprias ideias no que se referia a roteiros de quadrinhos. Mesmo com as vendas em baixa, nomes como Miller ganhavam mais notoriedade com os argumentos e as artes das revistas. O Demolidor representou bem essa época, mostrando que o talento do artista poderia ser benéfico na construção da mitologia de um personagem, tornando-o uma “cria” daquele que o desenvolvesse ao longo de cada edição.

Miller se valeu do fato de que seu grande mestre, Will Eisner escrevia e desenhava suas obras, o que para alguns executivos da MARVEL era algo que não deveria existir. Segundo os “engravatados”, desenhistas deveriam desenhar e escritores tinham que apenas escrever. Miller desenvolveu esta que é uma de suas melhores qualidades, a de contar bem uma história tanto visual, quanto conceitualmente. Isso se mostrou ao longo de sua carreira com o Demolidor.

Além do traço único, Miller deu às aventuras do personagem um tom mais sombrio e dramático, coisa que não acontecia nas histórias anteriores à sua chegada. Não só as crianças gostavam de ler as histórias, mas também o público adulto recebeu bem essa revolução no personagem. Temas como prostituição, assassinato e drogas foram usados por Miller ao longo de sua passagem pela revista, inclusive, revitalizando personagens recorrentes no universo do herói, como o Rei do Crime e o Mercenário.

A ótica de Miller apresentou ao público um novo conceito de super-herói, não mais como um ser infalível e sempre presente quando o dever chamasse, mas um ser humano falho e angustiado, tendo que pôr na balança os deveres como herói e sua própria vida enquanto ser humano. Além disso, o estilo narrativo de Miller revolucionou a arte de contar histórias em quadrinhos, com seu tom e dinâmica cinematográficos, apresentando segmentos de violência física, exploração das classes minoritárias e o poder da mídia.

Considerada por fãs e especialistas como a melhor história do Demolidor escrita por Miller, “A queda de Murdock” representou uma verdadeira revolução nas aventuras do personagem. Com a arte de David Mazzuchelli, a história se foca no alter-ego do herói noturno, o advogado cego Matt Murdock, envolvido no submundo do crime, repleto de gangsteres, prostitutas e assassinatos. Miller desenvolveu suas histórias a partir dos dramas pessoais do personagem, além de sua sede de justiça e defesa da lei.

O já citado Rei do Crime, o mega-empresário Wilson Fisk passou a ser um oponente à altura do Demolidor, e não apenas mais um vilão na galeria de personagens da MARVEL. Um dos mais poderosos e influentes empresários de Nova York era na verdade um frio e calculista criminoso, não medindo esforços para conseguir o que queria. A visão dada por Miller ao personagem representava uma crítica social feita pelo autor, de que o poder maior de um Estado estaria nas mãos de poucos, por meio da corrupção, criminalidade e opressão às massas.

Em meados de 1981, Frank Miller decidiu acabar com sua personagem Elektra de uma forma dramática: assassinada pelo arquiinimigo do Demolidor, o Mercenário. Considerado um risco pela MARVEL, Frank Miller recebeu apoio de alguns executivos da editora e desenvolveu a história. O resultado foi sucesso de vendas da edição 181 da revista do Demolidor. Miller nunca concordou com as constantes “ressurreições” da personagem ao longo dos tempos, feita pela MARVEL. Sendo uma personagem criada por ele, a sua decisão deveria ser respeitada. Coisas de direitos de propriedade. É interessante quando o próprio Miller diz em entrevistas que pensava em matar a personagem desde os primeiros números que escrevia e que essa medida seria necessária para o desenvolvimento da saga que estava construindo com o Demolidor.

Miller transformou as histórias em quadrinhos de simples diversão e entretenimento para um veículo poderoso de discussão política e social em meados dos anos80. Asérie realizada com o Demolidor fez tanto sucesso que a saga redefiniu os rumos do personagem, inclusive após a saída de Miller da série. Além disso, este trabalho representou uma valiosa influência para as obras seguintes feitas por Miller.

Em 1982, em parceria com Chris Claremont, um dos principais responsáveis pelo sucesso dos X-Men, Miller desenvolveu a mini-série “Eu, Wolverine”, apresentando uma aventura solo do mais popular dos mutantes no Japão, numa trama envolvendo samurais e o passado do personagem. A história apresentava um amor na vida de Logan, Mariko Yashida, além do “Tentáculo”, organização de assassinos que também fazia parte das histórias de Elektra.

Claremont convidou Miller para desenhar a história, pois acreditava que Wolverine era mais do que um cara baixinho e esquentado. Sua psique era complexa, segundo o escritor, e essa condição deveria ser mais explicada ao longo de suas histórias. Miller considerava Logan uma espécie de “samurai defeituoso”, com um código de honra inerente, mas suplantado pela violência de sua longa vida. A busca pela sua própria identidade, juntamente com a missão de salvar seu grande amor de um casamento indesejado, é algo muito bem explorado nas páginas dessa aventura, considerada por muitos, como a principal na carreira solo de Wolverine.

O texto de Claremont é ricamente ilustrado pelos desenhos de Miller, apresentando ao leitor a mudança de postura vivida por Logan, deixando de seu um guerreiro perdido por um passado desconhecido para se tornar uma máquina de matar, enfrentando tudo e a todos para salvar seu amor. Ou seja, é a jornada de um homem em busca do que acredita e deseja, mesmo que para isso tenha que enfrentar toda a sorte de perigos e os piores oponentes.

Os anos de 1983 e 1984 marcaram a investida de Frank Miller num universo do qual ele sempre foi interessado, as histórias de samurais. Ele já havia apresentado em suas obras anteriores diversos elementos da cultura nipônica, sobretudo, os códigos de honra de guerreiros e a importância das artes marciais na formação de seus guerreiros. Demolidor, Elektra e Wolverine na visão de Miller são mais que heróis, são autênticas representações de personagens orientais, como ninjas e samurais, tanto na forma, como no conteúdo.

Mas ao invés de contar uma história do Japão Medieval como tantas outras, ele inseriu este universo numa esfera de ficção científica, utilizando diversos elementos de mangá, muitos deles inspirados na obra “Lobo Solitário”, do qual ele sempre admirou, para contar a saga de uma guerreira samurai em busca de vingança contra o assassino de seu pai, que após ficar aprisionada numa espada mágica, junto ao demônio que caçava, acaba indo parar numa Nova York futurista e caótica.

No desenrolar da trama, há diversas menções ao Japão Feudal e muitos confrontos entre humanos e robôs. O desenho animado “Samurai Jack”, de Genndy Tartakovsky tem diversos elementos inspirados na série de Miller.

Mesmo sem uma grande aceitação do público, a obra representa uma aproximação da cultura ocidental e oriental nos quadrinhos, além de representar um importante momento na história dos autores de HQs, que passaram a ter maior controle sobre suas obras em relação aos selos e editoras. A obra de Miller também redefiniu o conceito de quadrinho americano, aproximando-o ao estilo europeu, de traços e cores mais voltados para o artístico e visual do que para o dinamismo das cenas de ação.

O ano de 1986 marca o maior sucesso na carreira de Frank Miller, “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, considerada uma das obras de quadrinhos mais importantes de toda a história, mostrando o retorno de Batman em uma Gotham City dominada por gangues e pela falta de esperança num futuro sombrio e destruído.

Mais violento e frio do que nunca, Batman é a única salvação dessa sociedade perdida, não medindo esforços para eliminar as ameaças, tanto as gangues de mutantes que dominavam a cidade, como o poder do governo americano, que tinha como principal propaganda e arma, nada mais, nada menos, que o Superman, um verdadeiro fantoche das forças direitistas dos EUA. Outros personagens conhecidos do universo DC ganharam versões futuras pelas mãos e mente de Frank Miller, como um Arqueiro Verde com ares de hippie e uma Robin, que traz Bruce Wayne de volta ao combate ao crime.

A visão de Miller para o Batman definiu o personagem nas histórias subseqüentes ao “Cavaleiro das Trevas”, inclusive em mídias além dos quadrinhos, como por exemplo, no filme de 1989, dirigido por Tim Burton. A contribuição maior de Miller para o personagem foi destruir totalmente a imagem construída pela série de televisão dos anos 60, que trazia um Batman “brincalhão” e totalmente distante às origens do personagem de Bob Kane. É importante salientar que essa imagem mais sombria do personagem já estava sendo feita em meados dos anos 70 nas aventuras escritas por Dennis O’ Neil e desenhadas por Neal Adams. Mas Miller definiu por completo essa tendência, revitalizando o Batman original.

No mesmo ano, Miller retorna para a MARVEL, novamente para ressuscitar o personagem “Demolidor”, cujas vendas começavam a cair, mesmo com a presença de Dennis O’ Neil nos roteiros e David Mazzucchelli nos desenhos. Além de “Demolidor: Guerra e Paz”, junto com Bill Sienkiewicz, e “Badlands” com John Buscema, Miller desenvolveu a história “A queda de Murdock”, com participação de Mazzucchelli e O’Neil na concepção da história.

O título nacional menciona a “queda” do personagem, mas na verdade, essa é apenas a primeira parte da série, chamada originalmente de “Born Again”, ou seja, os autores mostrariam a necessidade do herói em retomar o controle de sua vida, após passar por uma série de provações de toda ordem, como por exemplo, seus problemas amorosos, o fato de ter sua identidade sido descoberta e o valor de seus atos enquanto vigilante e justiceiro. Miller discute a relação de Matt com sua mãe, uma personagem que não era muito mencionada nas histórias do personagem até então.

Outro importante momento no universo do “Homem sem medo” é a série “Elektra Assassina”, escrita por Miller e desenhada por Bill Sienkiewicz, contando uma aventura da bela guerreira entre ninjas, ciborgues e muita violência. Na trama, uma Elektra sem memória, busca informações sobre seu passado ao mesmo tempo em que deve combater uma criatura conhecida como “A Besta” que escraviza pessoas, mas que tem planos de levar o mundo a uma guerra nuclear. Em meio a esse confronto, há a participação da S.H.I.E.L.D., a principal agência de espionagem do universo MARVEL e de um político obcecado pela guerreira.


A segunda parceria entre Miller e Sienkiewicz, logo após “Guerra e Paz” é bem mais estruturada e executada pelos artistas, o que levou à classificação “Epic Comics” para a obra, ou seja, voltada a um público adulto, sendo inclusive, distribuído em lojas especializadas. Além disso, a arte de Sienkiewicz se destaca pelo uso de aquarelas ao invés de tintas comuns para a arte de quadrinhos, conferindo à obra uma aproximação muito forte com quadrinhos europeus. Foi a primeira HQ pintada pelo artista e suas páginas poderiam muito bem estar em qualquer galeria de arte do mundo, devido à sua excelente qualidade e liberdade criativa do autor.

O que no início era apenas “mais uma história para ser escrita e desenhada” se tornou um dos maiores sucessos na indústria dos quadrinhos. A parceria entre o escritor e o desenhista foi se desenvolvendo ao longo do processo e criação da história, o que era mais importante para os dois, mais importantes do que o resultado final, segundo os próprios.

Em 1987, Miller retoma a parceria com David Mazzucchelli para criar mais uma história memorável de Batman. Em “Batman – Ano Um”, Miller reconta a história dos primeiros meses de Bruce Wayne como o “Cruzado da Capa”, ao mesmo tempo em que conta a história de James Gordon, chegando à Gotham como o novo tenente de polícia. Ambos os personagens, cada um à sua maneira, precisam lidar com o crime que assola a cidade, assim como a corrupção. Mesmo sendo uma história de Batman, o foco principal está em Gordon, que representa a esperança da população em alcançar a justiça pelos meios certos.

Como no universo das histórias em quadrinhos, morrer nunca foi problema, no ano de 1990, Frank Miller “resolveu” ressuscitar Elektra, na famosa história “Elektra Vive”, onde após a sua “morte” pelo Mercenário, a heroína é resgatada pelo Tentáculo para ser revivida. Mais que simplesmente trazer a heroína de volta à ativa, numa história de “mortos assombrando os vivos”, Frank Miller e Lynn Varney, sua colorista, que viria a se tornar também sua esposa, pretendiam criar uma obra que rivalizasse com as européias, que dominavam o mercado na época, tendo como grandes expoentes, por exemplo, o famoso quadrinistas Moebius.

O esforço em criar uma obra única foi grande, mas eles conseguiram e “Elektra Vive” é tida ainda hoje como uma das melhores histórias em quadrinhos da MARVEL e da carreira de Miller.

Ainda neste ano, Miller contou com a parceria do aclamado ilustrador Dave Gibbons (Watchmen) para criar a saga de Martha Washington, na série “Give Me Liberty”, uma crítica política ao regime democrata norte-americano por meio da história da ascensão de um líder que aos poucos vai se tornando um terrível tirano numa sociedade futura. A personagem-título passa de defensora do regime á uma ferrenha combatente do mesmo, ao descobrir os rumos que a sociedade deveria tomar caso continuasse sob o comando desse governo. As histórias seguem toda a vida da personagem e narram suas vitórias e derrotas contra o sistema.

No ano de 1991, Frank Miller lança um de seus trabalhos mais conhecidos e autorais, “Sin City – A cidade do pecado”, pela editora Dark Horse. Trata-se de uma série de 13 edições contando uma série de histórias em clima noir sobre uma cidade dominada pela corrupção e criminalidade.

A cidade de Basin City, localizada no noroeste dos EUA, próxima a Seatle, é marcada por uma constante chuva e pelos personagens que nela habitam, como policiais corruptos, líderes religiosos sem escrúpulos, prostitutas e pessoas sem ter o que fazer, entre outros tipos apresentados pelo autor. Dentre os principais personagens mostrados nas histórias, há Marv, um cara monstruoso e violento; Dwight McCarthy, um fotógrafo que deve favores às prostitutas e Goldie & Wendy, duas gêmeas que controlam o submundo das prostitutas.

As histórias foram contadas na série regular, entre os anos de 1991 e 1992, e em edições avulsas nos anos seguintes, contando aventuras e desventuras, tanto de personagens conhecidos do material original, como de outros apresentados nessas edições.

A série teve boa repercussão e mostra o estilo de Frank Miller, tanto na arte, quanto na forma como conta as histórias. Basicamente, os quadrinhos são feitos em um impressionante contraste de luz e sombra, com alguns elementos em cores, tais como sangue e determinadas partes do ambiente. Esse estilo noir de Miller é uma forma encontrada por ele para apresentar uma série de elementos de cena e situações numa mesma imagem, a partir do jogo entre luz e sombra e do contraste entre preto e branco. A falta de cor, segundo o autor, possibilita a amplitude na apresentação da história.

A escuridão é algo comum nas histórias de Miller porque segundo ele, representa muito de cada ser humano, seus impulsos e desejos em ultrapassar os limites estabelecidos pela sociedade. Tanto os atos heróicos, como os criminosos, se manifestam com maior poder quando estamos na escuridão, porque ela não representa apenas um estado em que nos encontramos, mas um estado que define muito de quem nós somos.

No ano de 2005, o diretor Robert Rodriguez convidou Miller para dirigirem uma versão da obra para o cinema, contando algumas histórias. Chamaram também para uma “participação especial”, o diretor Quentin Tarantino. O resultado final foi positivo e “Sin City – O filme” é bem fiel ao material em quadrinhos, numa das mais impressionantes transposições de uma HQ para as telas.


Ainda em 91, Miller escreveu “Hard Boiled”, ilustrado por Geof Darrow, sobre um cobrador de impostos suicida e ciborgue que se torna a última esperança numa corrida de robôs escravizados num futuro mais uma vez caracterizado como uma distopia.

Em 1993, na sua terceira passagem pela MARVEL, ao lado do famoso desenhista John Romita Jr., Miller lançou a série “Demolidor – O homem sem medo”, recontando a origem do personagem por um viés mais realista. A própria editora lançou uma campanha na imprensa de que Miller havia retornado com uma história avassaladora.

Em cinco capítulos, a história narra a trajetória de Matt Murdock, desde a infância, até seus tempos como o herói conhecido como Demolidor. Ao longo da saga, são reapresentados personagens marcantes na vida de Matt, como Wilson Fisk, seu amigo e sócio “Foogy” Nelson, sua maior paixão Elektra e Stick, responsável pelo treinamento do herói depois de seu trágico acidente.

Mais uma vez, Miller retrata a jornada pessoal do personagem principal, assim como seus dramas pessoais, tanto enquanto herói, quanto advogado.

O ano de 1995 foi marcado por um trabalho no mínimo diferente de Frank Miller. Ele escreveu a série “Big Boy and Husty”, desenhada por Geof Darrow, e publicada pela Dark Horse, sobre um garoto robô e seu companheiro robô gigante que têm que enfrentar uma gigantesca criatura réptil que ameaça a cidade de Tóquio. A temática e o traço são bem diferentes dos trabalhos anteriores atribuídos a Miller, mas mantém o mesmo espírito de aventura de outras obras.

Em 1998, Miller resgata um dos momentos mais marcantes da História Antiga, ao retratar em sua obra “300”a chamada “Batalha das Termópilas”, no ano480 a.C., onde 300 guerreiros espartanos liderados por Leônidas lutaram contra os exércitos persas, comandados por Xerxes, que estavam dominando toda a Grécia. Além dos registros históricos, Miller se inspirou no filme “Os 300 de Esparta”, de 1962, considerado um de seus preferidos na infância.

O formato da graphic novel inovou ao contar a história sob uma perspectiva horizontal de imagem, onde cada página dupla era representada como uma foto ou pintura das cenas narradas na trama. Segundo o próprio Miller, as histórias que se passavam nas cidades contemporâneas, deveriam ser contadas sob uma ótica vertical, porque assim elas são, com seus arranha-céus. Já as narrativas míticas e fantásticas, seriam contatas sob a visão horizontal, valorizando a amplitude das terras onde aconteciam as batalhas, além da própria perspectiva panorâmica dos combates.

A série recebeu diversos prêmios, mas também foi alvo de protestos, sobretudo, à conotação homossexual dos personagens, do tratamento dos espartanos com os demais povos e a extrema violência gráfica na edição. A forma como os guerreiros são mostrados também foi alvo de polêmica, já que eles não usam armaduras ou proteção, deixando os corpos o mais expostos possível. Não se trata de uma visão literal da história, mas uma concepção artística da mesma.

No ano de 2001, Frank Miller lança a continuação de sua maior obra. “O Cavaleiro das Trevas 2” se passa três anos após o fim da série original, quando Batman fora dado como morto e os EUA estavam sob o governo do presidente Rickard, um joguete nas mãos de Lex Luthor, transformando o país outrora livre, num regime facista. Os antigos heróis estão fora de combate e começam a voltar à ativa a partir do momento em que a tropa dos “batboys” liderada pela “Catgirl” resgatam Átomo e Flash. O ressurgimento das lendas heróicas é inevitável e o confronto com o Cavaleiro das Trevas mais uma vez ocorreria.

Miller não usou o estilo sombrio da obra original, preferindo fazer uma crítica ao mercado de quadrinhos tradicional, com seus heróis coloridos saltando de lá pra cá e enfrentando os desafios e oponentes. O visual dos personagens também é marcante, muito diferente dos desenhos norte-americanos comuns feitos pelos artistas ocidentais e mais influenciado pelo estilo japonês do mangá. Narrativa e traço com o objetivo de satirizar a indústria. Era essa a mensagem feita por Frank Miller e que a maioria dos fãs e adoradores de “Cavaleiro das Trevas” não quis entender. O resultado é que a obra foi uma das mais criticadas daquele ano e fez com que Frank Miller perdesse muitos pontos para os fãs de quadrinhos. Novamente Lynn Varney participou como colorista da obra.

O trabalho mais recente de Miller é “Holy Terror”, lançado em 2006, que conta a história do herói The Fixer lutando contra terroristas muçulmanos após um ataque à cidade de Empiry City. Segundo o próprio Miller, esta obra foi criada para ser uma “propaganda para ofender a maioria das pessoas”. O tema do terrorismo e a perseguição aos povos muçulmanos, sobretudo, após os eventos de 11 de setembro de 2011, fez com que essa obra recebesse críticas negativas, como por exemplo, ser considerada uma obra anti-islâmica.

O projeto inicial envolveria Batman combatendo a organização terrorista Al-Quaeda, mas essa ideia não foi desenvolvida, como se sabe. A partir dos ataques de 11 de setembro, Frank Miller passou a defender a soberania dos EUA enquanto nação dominante e o senso de patriotismo e auto-preservação dos norte-americanos, mesmo que para isso, o uso da força sobre outras nações seja usada. O personagem The Fixer estava mais para Dirty Harry (personagem de Clint Eastwood em filmes dos anos 70 e 80) do que para Batman, ou seja, ele seria muito mais durão e explosivo do que o racional Cavaleiro das Trevas.

Seja escrevendo e desenhando suas próprias histórias ou enviando seus roteiros para que outros artistas colaborem com ele na criação de obras fantásticas, Frank Miller é um nome que não pode ser esquecido por todos os amantes de histórias em quadrinhos e aventura em geral. O mais importante nas obras atribuídas a Frank Miller é que elas possuem um aspecto único, que caracteriza esse grande artista: a sua vontade de contar histórias para as pessoas.


MILLER NO CINEMA

Já nos anos 80, Frank Miller despertou o interesse dos produtores de Hollywood. O estilo de linguagem e as imagens elaboradas por Miller poderiam ser bem utilizados no cinema, e não tardou para que o escritor/desenhista fosse convidado para produzir roteiros.

O primeiro grande roteiro de Miller para o cinema foi de “Robocop 2”, filme de 1990. Após ter sido aceito no cenário do cinema, Miller disse que jamais abandonaria esse mercado. Contudo, os produtores do filme não gostaram da história escrita por ele e modificaram a história em vários aspectos. Mesmo assim, o nome de Miller é creditado no fim do filme. O mesmo aconteceu com o filme “Robocop 3”, mas desta vez, os produtores possibilitaram que Miller escrevesse uma nova versão de seu próprio roteiro. Evidentemente, após esses fatos, a posição de Frank Miller em relação às adaptações cinematográficas de suas histórias mudou.

Logo após isso, ele escreveu a sua versão de “Robocop 3” para a editora Dark Horse, detentora dos direitos do personagem.

Já em 2003, a partir do convite do cineasta e fã, Robert Rodriguez, ele aceitou voltar aos sets, para participar como co-diretor da versão de “Sin City” para as telonas. A aquisição de Quentin Tarantino ao projeto se deu por dois fatores: sua amizade com Robert Rodriguez e a possibilidade de trabalhar ao lado de seu ídolo, Frank Miller.

O próprio criador fez uma ponta no filme como um padre. Antes disso, ele já havia participado do filme “Demolidor – O homem sem medo”, como um bandido que morre nas mãos do Mercenário.

Em 2006, o diretor e produtor Zack Snyder lançou nos cinemas a sua adaptação fiel da obra “300”, que foi bem aceita por público e crítica por ser praticamente idêntica aos quadrinhos. O próprio Snyder admitiu em entrevistas que os quadrinhos serviram de roteiro para a filmagem das cenas. O objetivo do diretor era criar um filme visualmente espetacular, aproximando ao máximo o espectador da obra de Miller.

A Warner Bros. está produzindo um novo filme chamado “300 – Batalha de Artemísia”, sobre uma batalha ocorrida ao mesmo tempo que a das Termópilas, mas em outra parte da Grécia. Este filme focará na origem do personagem Xerxes, rei da Persa. Frank Miller está escrevendo e desenhando a HQ que inspirará esta nova produção cinematográfica.

E a mais recente participação de Frank Miller no cinema é a sua adaptação de “The Spirit”, personagem de Will Eisner, numa versão absolutamente fiel ao estilo gráfico do autor nos quadrinhos. Miller escreveu o roteiro e dirige o filme. O resultado não foi muito positivo nas bilheterias.

O mestre dos quadrinhos Frank Miller ainda tem muito a oferecer ao entretenimento e suas histórias continuarão a fascinar fãs por todo o mundo. Escondidos nas sombras ou lutando à luz do dia, os personagens de Frank Miller continuarão mostrando que o espírito humano é o que nos torna heróis ou vilões, e que cada um de nossos atos tem consequências que nos acompanharão por toda a vida.

Vida longa a Frank Miller!


FONTE
: http://filmesegames.com.br/2012/frank-miller-o-homem-das-sombras/