sábado, 12 de agosto de 2017

FABRÍCIO CARPINEJAR


Décima Elegia



Só na velhice o vento não ressuscita.
A água dos olhos entra na surdez da neve
e escuta a oração do estômago, dos rins, do pulmão.

O sono desce com a marcha dos ratos no assoalho.
Tudo foi julgado e devemos durar nas escolhas.

Só na velhice os grilos denunciam o meio-dia.
O exílio é na carne.

Esmorece o esforço de conciliar a verdade
com a realidade.
A neblina nos enterra vivos.

Só na velhice o pó atravessa a parede da brasa,
o riso atravessa o osso.
Deciframos a descendência do vinho.

Os segredos não são contados
porque ninguém quer ouvi-los.
O lume raso do aposento é apanhado pela ave
a pousar o bule das penas na estante do mar.

Só na velhice acomodo a bagagem nos bolsos do casaco.
O suspiro é mais audível que o clamor.

Recusamos o excesso, basta uma escova e uma toalha.

Só na velhice os músculos são armas engatilhadas.
O nome passa a me carregar.

É penoso subir os andares da voz,
nos abrigamos no térreo de um assobio.
Pedimos desculpa às cadeiras e licença ao pão.

O ódio esquece sua vingança.
Amamos o que não temos.

Só na velhice digo bom-dia e recebo
a resposta de noite.
Convém dispor da cautela e se despedir aos poucos.

Só na velhice quantos sofrem à toa
para narrar em detalhes seu sofrimento.

O pesadelo impõe dois turnos de trabalho.
Investigo-me a ponto de ser meu inimigo.

Sustentamos o atrito com o céu, plagiando
com as pálpebras o vôo anzolado, céreo, das borboletas.

Só na velhice há o receio em folhear edições raras
e rasgar uma página gasta do manuseio.
Embalo a espuma como um neto.

Confundimos a ordem do sinal da cruz.
O luto não é trégua e descanso, mas a pior luta.

Só na velhice a forma está na força do sopro.
Respeito Lázaro, que a custo de um milagre
faleceu duas vezes.

O medo é de dormir na luz.
Lamento ter sido indiscreto
com minha dor e discreto com minha alegria.

Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem.

Envelheci,
tenho muita infância pela frente.



FONTE: https://www.mensagenscomamor.com/poemas-de-carpinejar



terça-feira, 8 de agosto de 2017

ALEJANDRO JODOROWSKY





FERNANDO PESSOA


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

LUIZ MELODIA

Pérola Negra, Juventude Transviada & Negro Gato

sábado, 5 de agosto de 2017

22 frases de O Retrato de Dorian Gray



de  Oscar Wilde



1- A única maneira de se livrar de uma tentação é ceder-lhe.


2- Esse é um dos grandes segredos da vida: curar a alma, por meio dos sentidos, e os sentidos por meio da alma.


3- Os moços de hoje pensam que o dinheiro é tudo.
– É verdade – concordou lorde Henry, ajeitando a lapela do paletó. – E, quando envelhecem, adquirem a certeza.


4- Para voltarmos à mocidade, basta-nos repetir as nossas loucuras.


5- Os homens casam-se de cansaço; as mulheres, de curiosidade. Ambos decepcionam-se.


6- As mulheres representam o triunfo da matéria sobre o espírito; exatamente como os homens representam o triunfo do espírito sobre a moral.


7- Não diga “o romance mais extraordinário da minha vida”. Sempre há de ser amado e sempre estará apaixonado pelo amor. A “grande paixão” é o privilégio dos que não têm o que fazer.


8- Os que amam só uma vez na vida é que são superficiais. O que eles chamam de lealdade e fidelidade é a meu ver letargia do hábito ou falta de imaginação. A fidelidade é para a vida emotiva o que a coerência é para a vida intelectual: simplesmente uma confissão de insucessos.


9- As criaturas vulgares não nos impressionam a imaginação. Ficam limitadas ao seu século.


10- O apaixonado começa iludindo-se a si próprio e acaba enganando os outros. Eis o que o mundo chama um romance.


11- Mas os poetas medíocres são encantadores. Quanto piores os versos, tanto mais pitoresco é o poeta. O simplesmente fato de haver publicado um livro de sonetos de segunda ordem torna um homem absolutamente irresistível. Ele vive a poesia que não soube escrever. Os outros escrevem a poesia que não conseguem concretizar.


12- A criança começa amando os pais; mais tarde, ao crescer, julga-os; às vezes perdoa-os.


13- Eu agora nunca aprovo ou reprovo nada. Aprovar e reprovar são atitudes absurdas para com a vida. Não viemos ao mundo para dar largas aos nossos preceitos morais.


14- O verdadeiro inconveniente do casamento é que ele extingue em nós o egoísmo. E os seres sem egoísmo são incolores.


15- O motivo do nosso empenho em julgar bem o próximo é que temos medo de nós mesmos: a base do otimismo é puro receio.


16- O prazer é a única coisa merecedora de que se lhe dedique uma teoria. (…) O prazer é o teste da natureza, o seu sinal de aprovação. Quando somos felizes, sempre somos bons; mas, por sermos bons, nem sempre seremos felizes.


17- Na auto-acusação há uma espécie de volúpia. Acusando-nos, sentimos que ninguém mais tem o direito de nos censurar. É a confissão que nos absolve, não o sacerdote.


18- As boas resoluções são tentativas inúteis de contrariar as leis científicas. Originam-se de vaidade pura.


19- Devemos absorver o colorido da vida e não guardar na memória as suas minúcias. As minúcias são sempre vulgares.


20- Há sempre um laivo de crueldade em todo prazer, talvez em toda alegria.


21- Cada um de nós, Basil, tem em si o céu e o inferno!


22- O homem pode ser feliz com qualquer mulher, contanto que não a ame.





quarta-feira, 2 de agosto de 2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

WALT WHITMAN


Canção de Mim Mesmo (trecho inicial)


1.
Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.

Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranqüilamente, observando uma haste da relva de verão.

Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.

Crenças e escolas quedam-se dormentes
Retraindo-se por hora na suficiência do que não, mas nunca esquecidas,
Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.

2.
Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.

A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.

A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,
O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,

Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?

Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

3.
Eu ouvi a conversa dos falantes, a conversa sobre o início e sobre o fim,
Mas não falo nem do início nem do fim.

Nunca houve mais iniciativa do que há agora,
Nem mais juventude ou idade do que há agora,
E jamais haverá mais perfeição do que há agora,
Nem mais paraíso ou inferno do que há agora,

O anseio, o anseio, o anseio,
Sempre o anseio procriador do mundo.

Na obscuridade a oposição equivale ao avanço, sempre substância e acréscimo, sempre o sexo,
Sempre um nó de identidade, sempre distinção, sempre uma geração de vida.
Não vale elaborar, eruditos e ignorantes sentem que é assim.

Certeza tal como a mais certa certeza, aprumados em nossa verticalidade, bem fixados, suportados em vigas,
Robustos como um cavalo, afetuosos, altivos, elétricos,
Eu e este mistério aqui estamos, de pé.

Clara e doce é minha alma e claro e doce é tudo aquilo que não é minha alma.

Faltando um falta o outro, e o invisível é provado pelo visível
Até que este se torne invisível e receba a prova por sua vez.

Apresentando o melhor e isolando do pior, a idade agasta a idade,
Conhecendo a adequação e a eqüanimidade das coisas, enquanto eles discutem eu mantenho-me em silêncio e vou me banhar e admirar a mim mesmo.

Bem-vindo é todo órgão e atributo de mim, e também os de todo homem cordial e limpo.
Nenhuma polegada ou qualquer partícula de uma polegada é vil e nenhum será menos familiar que o resto.

Estou satisfeito – vejo, danço, rio, canto;
Quando o companheiro amoroso dorme abraçado a mim a noite inteira e depois vai embora ao raiar do dia com passos silenciosos,
Deixando-me cestas cobertas com toalhas brancas enchendo a casa com sua exuberância,
Devo adiar minha aceitação e compreensão e gritar pelos meus olhos,
Para que deixem de fitar a estrada ao longe e para além dela
E imediatamente calculem e mostrem-me para um centavo,
O valor exato de um e o valor exato de dois, e o que está à frente?

4.
Traiçoeiros e curiosos estão à minha volta
Pessoas com quem me encontro, os efeitos que a minha infância tem sobre mim, ou o bairro e a cidade em que vivo, ou a nação,
As últimas datas, descobertas, invenções, sociedades, autores antigos e novos,
Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
A indiferença real ou fantasiosa de um homem ou mulher que eu amo,
A doença de alguém de minha gente ou de mim mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de dinheiro, depressões ou exaltações,
Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem de mim outra vez,
Mas não são o meu verdadeiro Ser.

Longe do que puxa e do que arrasta, ergue-se o que de fato eu sou,
Ergue-se divertido, complacente, compassivo, ocioso, unitário,
Olha para baixo, está ereto, ou descansa o braço sobre certo apoio impalpável,
Olhando com a cabeça pendida para o lado, curioso sobre o que está por vir,
Tanto dentro como fora do jogo, e o assistindo, e intrigado por ele.

No passado vejo meus próprios dias quando suei através do nevoeiro com lingüistas e contendores,
Não trago zombarias ou argumentos, apenas testemunho e aguardo.

(…)



WHITMAN, WALTWalt Whitman – Canção de Mim Mesmo
(Poema do livro Folhas de relva. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 49. Trecho inicial.) 



domingo, 30 de julho de 2017

DISCOTECA BÁSICA

Elvis Presley
The Sun Sessions (1976) [Compilation]

(Edição 3,Outubro de 1985)

por  Roberto Muggiati

Como quase tudo no rock'n'roll, é uma história cercada de lenda. Sam Phillips, dono de uma gravadora em Memphis, queria "encontrar um branco com o som e o sentimento de um negro, para ganhar um milhão de dólares". Elvis Presley, um jovem aspirante a cantor, queria ter o melhor carro da cidade. O encontro dos dois assumiria uma dimensão mitológica. Mas não aconteceu facilmente. Tudo começou numa tarde do verão de 53. Elvis, 18 anos, chofer de uma firma de artigos elétricos, estacionou a caminhonete da companhia na sua hora de almoço em frente da Memphis Recording Service, uma subsidiária da gravadora Sun, de Sam Phillips. Ali, pagando quatro dólares, qualquer um podia gravar qualquer coisa num disco de acetato de dez polegadas. Quem cuidava do serviço para Sam era Marian Keisker, ex-Miss Rádio de Memphis, que ficou impressionada com a voz de Elvis. Marian pegou o endereço e o telefone do rapaz. E o recomendou vivamente ao patrão, que acabou ouvindo Elvis. Os sentimentos de Phillips em relação a Elvis eram ambivalentes. Acreditava no seu potencial, mas não conseguia acertar com ele. Apresentou-o ao guitarrista Scotty Moore e ao baixista Bill Black e fez que iniciassem um verdadeiro laboratório Presley. Finalmente foi marcada uma sessão para 5 de julho de 1954. Corria tudo morno, como de costume, até que, num dos intervalos, Elvis começou a brincar com uma versão envenenada de um blues de Arthur 'Big Boy" Crudup, "That's All Right (Mama)". Sam sentiu aquele estalo e gritou da cabine: "Que é que vocês estão fazendo?" Um dos músicos respondeu: "Sei lá..." Sam ordenou: "Então descubram. Vamos rodar de novo!" O resultado foi o que um rockrítico definiu como "a Pedra de Roseta do rock'n'roll".
A associação de Elvis com Sam Phillips durou 16 meses, até novembro de 1955, quando a Sun Records vendeu o cantor para a RCA por 40 mil dólares. Sam não conseguiu o seu milhão de dólares, mas teve a glória de figurar no centro de uma verdadeira revolução cultural.
Já Elvis, com as luvas do contrato, comprou o primeiro de uma frota de Cadillacs. Desta breve e insólita colaboração nasceu este punhado de canções que a RCA, muito tempo depois, reuniria num LP com o título de The Sun Sessions. Está tudo ali. A fusão ideal das duas grandes correntes sonoras - a branca e a negra, o country & western e o rhythm & blues - num estilo único, o rock'n'roll. Estão ali o Elvis roqueiro, o Elvis caipira e o Elvis pop, o cantor romântico, às vezes até meloso, que arrebatava os corações carentes de todas as latitudes, de todas as idades. É curioso ouvir, numa canção como "I'm Left, You're Right, She's Gone", os Beatles dos primeiros tempos; é intrigante captar, em "I'll Never Let You Go", a sensibilidade vocal lancinante do Lennon da fase pós-Beatles.
Como escreveu Albert Goldman, "20 anos antes, os músicos de jazz estavam fazendo o mesmo truque, tocando canções da maneira convencional e depois improvisando sobre elas. Vinte ou trinta anos antes do swing, o truque era o ragtime. O que Elvis fez nas sessões da Sun foi repetir instintivamente aquele processo de inovar a música recarregando o seu ritmo de um modo que tem caracterizado cada revolução estilística na história da música popular do século vinte. É isso que dá às sessões da Sun sua qualidade arquetípica."
Uma faixa resume particularmente a vitalidade deste som que marcaria a nossa época. É "Good Rockin' Tonight", com o baixo na marcação do boogie e a guitarra já saindo de suas funções meramente rítmicas para se alçar aos solos que aliciariam toda uma geração, enquanto Elvis faz o anúncio: "Well, I heard the news, there's good rockin' tonight." 


FONTE:  http://rateyourmusic.com/list/Mhrr/discoteca_basica_revista_bizz/1/



sábado, 29 de julho de 2017

BÊBADOS HABILIDOSOS

Blues da Solidão

Vídeo da banda Bêbados Habilidosos gravado para o programa Estúdio 104 da TV Brasil Pantanal de Campo Grande- MS.
Renato Fernandes-vocal, Marcelo Rezende- contrabaixo, Rodrigo Paiva-Guitarra, Erik Artiolli- bateria, Júlio Bellucci- sax e Juninho Silva- teclados

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Millôr Fernandes - entrevistado por Clarice Lispector


Não vou apresentar Millôr: quem o conhece sabe que eu teria que escrever várias páginas para apresentar uma figura tão variada em atividades e talentos. Somos amigos de longa data. Nossa entrevista decorreu fácil, sem incidentes de incompreensão. Havia confiança mútua.


Clarice Lispector – Como vai você, Millôr, profundamente falando?
Millôr Fernandes – Vou profundamente, como sempre. Não sei viver de outro modo. Pago o preço.
Clarice Lispector – Às vezes o preço é alto demais, Millôr. Como é que lhe veio a ideia de arquitetar O homem do princípio ao fim, que é um grande e comovente espetáculo? Eu, por exemplo, o veria de novo.
Millôr Fernandes – Foi a pedido dessa extraordinária amiga que é Fernanda Montenegro. Como eu já tinha escrito um espetáculo basicamente político, Liberdade, liberdade (com Flávio Rangel), resolvi não me repetir e me fixei num ponto de vista humanístico que é a qualidade essencial daquele meu trabalho.
Clarice Lispector – Que é que você me diz de sua experiência como ator?
Millôr Fernandes – Sensacional e inútil. Sensacional por causa da segurança que se ganha ao perceber uma possibilidade total de comunicação, e isso é emocionante. Inútil porque não tenho nada a fazer com o resultado dessa experiência. A comunicação que busco é toda outra, íntima e definitiva.
Clarice Lispector – Millôr, você já sentiu com toda a humildade a centelha de uma coisa que uns chamam de gênio, mas não é gênio, é bastante comum: é uma visão instantânea das coisas do mundo como na realidade são?
Millôr Fernandes – Se é isso que chamam de gênio, então está para mim. Só vejo isso. Tenho mesmo a impressão de que nada do que vejo é comum. A mim me faltam todas as noções das coisas do mundo tal como ele é. Mas essa espécie de lucidez de que você fala, a lucidez do absurdo, essa eu tenho no meio da maior paixão. Creio mesmo que um dia vou estourar de lucidez, isto é, ficar louco.
Clarice Lispector – Conte-me algo de sua infância.
Millôr Fernandes – Dura! Dura! Linda! Linda! O Méier, naquela época, era praticamente rural. Eu aprendi a nadar em um pântano, cheio de rãs. Aprendi a amar num quintal fazendo bonecos de tabatinga junto com as meninas. Essa infância durou até os dez anos. Aí, um dia, na morte de minha mãe, chorando horas embaixo de uma cama, eu consegui a paz da descrença. Aos dez anos, pois é.
Clarice Lispector – De que modo lhe vem a inspiração, Millôr? Você sente que vem de seu inconsciente?
Millôr Fernandes – Creio que exatamente de todos os modos. Mas não penso que seja precisamente inconsciente. Mesmo quando parece inconsciente acho que o núcleo da inspiração é uma vivência qualquer (imagem, som, dor, angústia) antes arquivada e de repente, por qualquer motivo (também exterior), ressuscitada. Mas meu caso é muito especial: não sou um escritor, sou um profissional de escrever.

Falamos sobre várias personalidades; em seguida perguntei-lhe:

Clarice Lispector – Quais os homens que você mais admira e por quê?
Millôr Fernandes – Vou limitar a pergunta, no tempo e no espaço. E prefiro assim ter a coragem de escolher um homem de meu tempo e de meu espaço. Vinícius de Moraes. Pelo muito que somos iguais, pelo imenso que nos separa, eu elejo o poetinha como o dono de uma visão da vida essencial.

De conversa puxa conversa, passamos, não sei como, a falar da morte.

Clarice Lispector – Como é que você encara o problema da morte? A morte é um problema para você?
Millôr Fernandes – Acho o problema da morte fascinante (talvez porque eu não a sinta perto de mim). Gostaria mesmo de morrer já para, sem trocadilho, viver essa experiência. Desde que me fosse dado, depois, voltar apenas para contar como foi.

Voltamos a falar da vida e sobre o que mais nos importava.


Clarice Lispector
– O que é que mais importa na vida?
Millôr Fernandes – A relação humana. O amor. A paixão, nisso incluída. Também, ou sobretudo, as paixões condenadas, de homem com homem e mulher com mulher. Como sou aquilo que a sociedade chama de saudável e normal, as paixões anormais merecem o meu maior respeito.
Clarice Lispector – Se você não fosse escritor, o que seria?
Millôr Fernandes – Um atleta. Eu sou, fundamentalmente, um atleta frustrado. Aliás, essa é a única frustração que me ficou de uma pré-juventude (de dez a 17 anos) excessivamente dura.
Clarice Lispector – Em matéria de escrever, você sente, na sua trajetória, um progresso?
Millôr Fernandes – Acho que sim. Sobretudo se comparar o início com a fase atual, o que não é vantagem porque eu comecei a escrever em jornal aos 13 anos de idade. Só um debilóide não teria progredido. De qualquer forma, continuo tentando me renovar sempre, num gosto por buscar formas e visões novas, que ainda não perdi.
Clarice Lispector – E, em matéria de vida, de maneira de viver, você sente um progresso que vem da experiência?
Millôr Fernandes – Acho que sim. Mas será que os outros acham? Nada me surpreende mais, por exemplo, do que ouvir dizer que sou agressivo. Porque eu me sinto a flor da ternura humana. Mas será que sou? De qualquer forma, há dentro da minha mais profunda consciência a certeza de que o gênio do ser humano está na bondade. Isso eu procuro.

Concordei com ele sobre a bondade.


Clarice Lispector
– Também eu a procuro com humildade e ao mesmo tempo com veemência. Millôr, você ainda faz hai-kai? (Hai-kai é um estilo poético popular japonês, aparecido há mais ou menos quatro séculos.)
Millôr Fernandes – Posso fazer. Vou fazer dois:

Você pode crer
O pior cego
É o que quer ver.

Esta é a verdade
Eu sou um homem
De minha idade.



Fonte: - LISPECTOR, Clarice. Clarice Lispector entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.


FONTE: http://www.elfikurten.com.br/2016/07/millor-fernandes-entrevistado-por.html


quarta-feira, 26 de julho de 2017

terça-feira, 25 de julho de 2017

FERNANDO PESSOA


Cai chuva do céu cinzento


Cai chuva do céu cinzento

Que não tem razão de ser.

Até o meu pensamento

Tem chuva nele a escorrer.


Tenho uma grande tristeza

Acrescentada à que sinto.

Quero dizer-ma mas pesa

O quanto comigo minto.


Porque verdadeiramente

Não sei se estou triste ou não,

E a chuva cai levemente

(Porque Verlaine consente)

Dentro do meu coração.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O PROFESSOR ALOPRADO

The nutty professor (1963)

Paramount Pictures, 107min. Direção: Jerry Lewis. Roteiro: Jerry Lewis, Bill Richmond. Fotografia: W. Wallace Kelley. Montagem: John Woodcock. Música: Walter Scharf. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hal Pereira, Walter Tyler/Robert Benton, Sam Comer. Produção: Ernest D. Glucksman. Elenco: Jerry Lewis, Stelle Stevens, Del Moore, Kathleen Freeman. Estreia: 04/6/63

Em 1996, o ator Eddie Murphy reencontrou o caminho das bilheterias milionárias com "O professor aloprado", uma comédia dirigida por Tom Shadyac que explorava ao máximo seu talento em transformações físicas e no humor escatológico. O filme não apenas recuperou o sucesso comercial de Murphy, como também levou pra casa um justíssimo Oscar de maquiagem e, mais importante ainda, relevou a uma nova geração de espectadores o filme original, um dos mais populares e importantes da carreira de Jerry Lewis. Lançado em 1963, no auge de seu sucesso como autor total de seus filmes - ele atuava, dirigia, escrevia o roteiro e produzia - "O professor aloprado" brincava com o conceito Dr. Jekyll e Mr. Hyde criado por Robert Louis Stevenson em "O médico e o monstro" para fazer uma severa crítica à valorização oca da beleza física em detrimento de sentimentos mais nobres. Parece um discurso sentimentaloide, mas nas mãos de Lewis, especialista em desconstruir os mais sérios discursos com a delicadeza de uma marreta, tudo é desculpa para uma série de gags - que se dividem entre as bem-sucedidas e as que não conseguem chegar lá.

Dotado do visual camp inconfundível dos anos sessenta, "O professor aloprado" apresenta Lewis como seu personagem arquetípico, o desajeitado, sem graça e fracassado amorosamente Julius Kelp, um mestre de química que, apesar da inteligência acima da média, não consegue nem mesmo o respeito de seus alunos, que não se cansam de debochar de seu visual, de sua voz esganiçada e de seu sorriso dentuço. Vítima constante de bullying até dentro de sala de aula e apaixonado pela delicada Stella Purdy (Stella Stevens), ele resolve mudar de vida, mas quando até suas tentativas de enfrentar uma rotina de exercícios de musculação não dão resultado, ele apela para uma fórmula secreta que lhe transforma - depois de muitas experiências mal-sucedidas - em um galã de fala mansa mas um tanto agressivo e sedutor. Buddy Love, com seu jeito galanteador de quinta categoria, acaba por seduzir Stella, sem dar chance à real personalidade de Kelp de mostrar suas qualidades.

Segundo as más-línguas, Jerry Lewis criou o antipático e canastrão Buddy Love inspirado em seu ex-parceiro de palco e telas Dean Martin - embora tenha semelhanças também com o líder do grupo de amigos de Martin, o cantor Frank Sinatra. Verdade ou não, é fato que a divisão do ator em dois personagens tão díspares apenas comprova sua versatilidade e capacidade de deixar de lado a persona infantiloide que tanto encantava o público infantil e os franceses em geral. Apaixonados pela obra de Lewis - muito mais do que seus conterrâneos, que frequentemente não valorizavam seus esforços artísticos - os críticos da França o viam como um autor do mesmo nível de Charles Chaplin, ao contrário dos norte-americanos, que menosprezavam seu trabalho como algo puramente comercial. O fato de que o astro não era exatamente uma pessoa de fácil convivência ajudava a relegá-lo a uma espécie de limbo profissional, em que era adorado pelos fãs mas detestado por todos que o rodeavam - e talvez isso deixe claro que Buddy Love era apenas uma faceta do próprio Lewis, que ele preferia esconder do grande público enquanto fazia suas pataquadas. Psicologismos à parte, "O professor aloprado" é, hoje, um filme que parece não ter resistido muito ao teste do tempo.

Além do visual sessentista - charmoso mas um tanto desconfortável pelo excesso de cores fortes que lhe dão um ar psicodélico hoje um tanto anacrônico - e de um ritmo por vezes claudicante, o filme de Jerry Lewis se arrasta mais do que deveria, demorando a apresentar a segunda personalidade do protagonista até quase metade da projeção. O roteiro - escrito e reescrito diversas vezes - não chega a empolgar, sempre dando a impressão de ser um fiapo de história feito com o objetivo de ligar várias cenas onde o ator pode exercitar seu egocentrismo (e, convém dizer, seu talento). Os atores coadjuvantes são outro problema, jamais fazendo jus ao esforço de Lewis em dar consistência a um conjunto não muito bem estruturado. A impressão de que o show é unicamente do ator é nítida, e, apesar de ele conseguir manter a atenção até o final da narrativa, seus exageros nem sempre funcionam como deveriam. Apesar disso, é uma comédia que é a cara de sua época, e um exemplo mais que perfeito do que Jerry Lewis era capaz em seu apogeu. Uns (como os franceses) veneram. Outros se aborrecem. Basta escolher um lado.

FONTE:

terça-feira, 18 de julho de 2017

EDDIE & THE HOT RODS


CHARLES BUKOWSKI

um bom poema

um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está mais a fim,
um bom poema é um sanduíche de presunto, quando você está
faminto,
um bom poema é uma arma quando
os bandidos te cercam,
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas
da morte,
um bom poema pode fazer a morte
derreter feito manteiga,
um bom poema pode enquadrar a agonia e
pendurá-la na parede,
um bom poema pode fazer seu pé tocar
a China,
um bom poema pode fazer você cumprimentar
Mozart,
um bom poema permite você competir
com o diabo
e ganhar,
um bom poema pode quase tudo,
isso sem dizer que
um bom poema sabe quando
parar.



FOTOGRAFANDO

AQUI, ALÍ e ACOLÁ






Fotografias de Ricardo Silva

BOCAGE


Saiba morrer o que viver não soube

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.




segunda-feira, 17 de julho de 2017

CINE CENA

Ed Wood (1995) 
Diretor: Tim Burton

MARTIN LANDAU
Nova York , 20 de junho de 1928 - 15 de julho de 2017.


GEORGE A. ROMERO

George Andrew Romero
Nova Iorque, 4 de fevereiro de 1940 — Toronto, 16 de julho de 2017.





quinta-feira, 13 de julho de 2017

DISCOTECA BÁSICA

JANIS JOPLIN
I Got Dem ‘Ol Kosmic Blues, Again Mama! (1969)



Por  Mairon Machado


Após sair da Big Brother, Janis e a gravadora Columbia montaram uma super banda, e partiram aos estúdios para registrar um dos melhores discos da história da música. Misturando soul, funk, blues e rock’n’roll, I Got Dem ‘Ol Kosmic Blues, Again Mama! é uma aula de emoção e inspiração, a começar pela maravilhosa capa, flagrando Janis em cima do palco em um agito que somente ela conseguia exalar de seu corpo.

Janis livra-se do som característico de San Francisco, experimentando novas direções e comprovando aquilo que todos haviam visto (e ouvido) quando ela era apenas uma cantora no Big Brother: na verdade, ELA era verdadeira estrela. Abrindo com o suingue de “Try (Just a Little Bit Harder)”, Janis e a Kosmic Blues Band desfilam por pérolas mágicas da música, com lindas baladas (“Maybe”, “Little Girl Blue” e a arrepiante versão para “To Love Somebody“, original do Bee Gees), uma estonteante sessão instrumental na introdução da dançante “As Good As You’ve Been to This World“, com um espetáculo a parte do naipe de metais, e blues alucinantes (“One Good Man” e “Work Me Lord”).

Janis supera-se em “Kosmic Blues“, uma das mais emocionantes gravações da carreira da cantora, se não a maior, com uma estupenda reta final que arranca o fôlego de qualquer ouvinte. Musicalmente, o melhor disco da carreira da cantora. Em termos de interpretação, a vocalista estava preparando-se para chegar no ápice da carreira. Uma pena que a Kosmic Blues acabou pouco depois, mas deixou um legado venerado por todos os admiradores do estilo. Não a toa, ganhou disco de ouro dois meses depois de lançamento, e rapidamente ganhou platina, com mais de um milhão de cópias vendidas. O relançamento em CD apresentou a inédita “Dear Landlord” e mais versões em Woodstock para “Summertime” e “Piece of My Heart”.


FONTE: https://www.consultoriadorock.com/2012/10/21/discografia-comentada-janis-joplin/



GERALDO CARNEIRO


Olhos de ressaca



minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente

eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores

e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos

eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca

e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua

eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua

se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.


terça-feira, 11 de julho de 2017

JOE COCKER

Mad Dogs & Englishmen
With A Little Help From My Friends



segunda-feira, 10 de julho de 2017

DEBRET

Jean-Baptiste Debret

(Paris, 18 de abril de 1768 — Paris, 28 de junho de 1848)



 

 

VINICIUS DE MORAES

Pátria Minha


A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”

domingo, 9 de julho de 2017

sábado, 8 de julho de 2017

FOTOGRAFANDO

FLORES





Fotografias de Ricardo Silva

sexta-feira, 7 de julho de 2017

FERNANDO PESSOA

DO LIVRO DO DESASSOSSEGO

Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma ideia do futuro, também não temos uma ideia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.


domingo, 2 de julho de 2017

A questão da escassez de alimentos


por  Luis Solda (Prof. Thimpor)



A ONU enviou carta a todos os países com uma questão a ser respondida


“Por favor, diga honestamente qual é a sua opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo”.

A pesquisa foi um fracasso.

Os europeus não entenderam o que era escassez, e os africanos não sabiam o que era alimento.

Os cubanos não entenderam o que era opinião, e os argentinos, o significado de por favor.

Os norte americanos nem imaginam o que seja resto do mundo. O Congresso brasileiro está debatendo o que é honestamente.



SOLDA CÁUSTICO: http://cartunistasolda.com.br/


sexta-feira, 30 de junho de 2017

quarta-feira, 28 de junho de 2017

WIESLAW WALKUSKI




ZÉ DA SILVA


Foi no Viaduto do Chá. Não sei explicar como fui parar lá, mas tomei aquele de lírio selvagem e a vi. A cigana. Vestia uma roupa igual à do Hendrix. Estiquei o braço direito e abri a mão sem ela pedir. Os olhos da mulher se arregalaram igual aos quadros daquela pintora que virou filme normal do Tim Burton. Mais que grandes! Não tem linhas, ela gritou. Um carro lá embaixo, no Vale do Anhangabaú, freou. Outro, atrás, bateu – e mais outro, outro, outro e outro. Marcelo Tas apareceu de óculos vermelhos como o repórter Ernesto Varela. Subiu num capô e levou um safanão de um craquelento que comandava o exército de esfarrapados que veio da Estação da Luz. Alguém lembrou de Michael Jackson e começou a cantar e dançar Thriller. A mulher que não desgrudou da minha mão deu um riso fantasmagórico. Não tinha dentes. Sem futuro, ela disse. Olhei em volta e concordei.


segunda-feira, 26 de junho de 2017

domingo, 25 de junho de 2017

IVAN CARDOSO

E A ANTOLÓGICA CAPA DA "PELEJA DO DIABO COM O DONO DO CÉU" 



















Fotos e texto por  Ivan Cardoso

EM 1978, EU FUI CONVIDADO PELO MEU AMIGO CARLOS SION PARA FOTOGRAFAR A CAPA DUPLA DO NOVO LP DO ENDIABRADO CANTOR ZÉ RAMALHO !!! NA VERDADE A MINHA MISSÃO ERA MAIOR QUE A DE UM SIMPLES FOTOGRAFO, NAQUELA ÉPOCA O ZÉ RAMALHO ESTAVA ESTOURADO, SEU DISCO ANTERIOR TINHA SIDO UM GRANDE SUCESSO DE MANEIRA QUE A SUA GRAVADORA, A CBS ESTAVA DECIDIDA EM INVESTIR MAIS NO NOVO PROJETO DO CANTOR PARAIBANO... ALÉM DISSO ZÉ RAMALHO ERA UM FÃ APAIXONADO PELO CINEMA DE JOSÉ MOJICA MARINS, E O SEU GRANDE SONHO ERA TER AO SEU LADO, NA CAPA DESTE DISCO O MALDITO ZÉ DO CAIXÃO !!!
ELES ACREDITAVAM QUE SERIA IMPOSSÍVEL LOGRAR ESTA FAÇANHA. MAS, COMO SABIAM DA MINHA AMIZADE INTIMA COM O HOMEM DA CAPA PRETA DA BOCA DO LIXO, ME PEDIRAM QUE USASSE A MINHA INFLUENCIA, NO SENTIDO DE CONTRATAR O ZÉ PARA APARECER NA CAPA DO OUTRO ZÉ !!!
ALÉM DE UM CACHÊ, EQUIVALENTE AO QUE HOJE, SERIA UNS DEZ MIL REAIS... A PARTICIPAÇÃO DE MOJICA, AINDA CUSTARIA MAIS CARO,PORQUE ENVOLVIA TAMBÉM AS PASSAGENS AÉREAS PARA O FAMOSO CINEASTA PAULISTA & SEU GUARDA COSTAS, SATÃ (QUE TAMBÉM RECEBERIA UMA PEQUENA REMUNERAÇÃO), HOSPEDAGEM POR TRÊS DIAS ;NO HOTEL PLAZA, ASSIM COMO O PAGAMENTO DE TODOS OS COMES & BEBES DA EXTRAVAGANTE DUPLA !!!
TANTO O CARLINHOS, QUANTO O PESSOAL DA CBS &  PRINCIPALMENTE O ZÉ RAMALHO - QUE ESTAVA PAGANDO COM DINHEIRO DE SEU PRÓPRIO BOLSO PARTE DESTA SUPER PRODUÇÃO - FICARAM EUFÓRICOS COM A NOTÍCIA DA CONTRATAÇÃO DO MESTRE DO TERROR... &  RESOLVERAM INVESTIR AINDA MAIS NO MEGA PROJETO, CONTRATANDO DUAS MOÇAS, SENDO UMA DELAS, A DESLUMBRANTE ATRIZ XUXA LOPES QUE TAMBÉM ERA MINHA AMIGA, PARA EMBELEZAREM AINDA MAIS A CAPA DO INUSITADO LP !!
EU, JÁ TINHA FEITO, MAIS DE DEZ CAPAZ DE DISCO, DOS PRINCIPAIS ASTROS DA NOSSA MPB, MAS NUNCA TINHA VISTO UMA VERBA TÃO GENEROSA PARA ESTE TIPO DE PRODUÇÃO... DEPOIS DE TER ACERTADO, SEM MAIORES PROBLEMAS A MINHA REGIA REMUNERAÇÃO... ASSISTINDO AQUELA FARRA TODA DE DINHEIRO, ME LEMBREI QUE O MEU QUERIDO AMIGO HÉLIO OITICICA ESTAVA DURO, PRECISANDO DE UMA GRANA... E, POR ISSO MESMO, USEI OS MEUS PODERES PARA FAZER A CABEÇA DO CARLINHOS SION, SOBRE A IMPORTÂNCIA DE POR APENAS UM PEQUENO CACHÊ, PODERMOS CONTAR TAMBÉM, COM A PARTICIPAÇÃO DO LENDÁRIO CRIADOR DA TROPICÁLIA, NESTA JÁ ANTOLÓGICA CAPA !!!
ESCOLHI COMO CENÁRIO DE FUNDO DO NOSSO TRABALHO A INCRÍVEL CASA DAS RUÍNAS, EM SANTA TEREZA, ONDE COSTUMAVA FILMAR MEUS FILMES DE MÚMIA, NOS ANOS 70, PODENDO LHES GARANTIR QUE NAQUELE TEMPO A NOSSA LOCAÇÃO ESTAVA REALMENTE CAINDO AOS PEDAÇOS !!! NO DIA DAS FOTOS, A CONFUSÃO ERA GERAL, MAS GRAÇAS A COLABORAÇÃO SEMPRE EFICIENTE DE OSCAR RAMOS, DE LUCIANO FIGUEREDO &  DO PRÓPRIO CARLOS SION, NUM SÁBADO ENSOLARADO., LÁ FOMOS NOS PARA SANTA TEREZA !!! EU HAVIA PEDIDO AO HÉLIO QUE ALÉM DE SUA CELEBRE CALÇA DE PASSISTA DA MANGUEIRA, LEVASSE TAMBÉM O PARANGOLÉ "NOBLAU" QUE ELE TINHA CRIADO ESPECIALMENTE PARA O MEU FILME "HO" !!! O HÉLIO ESTAVA EUFÓRICO COM A SUA CONTRATAÇÃO, NÃO SÓ COM OS MIL REAIS (?) QUE IRIA EMBOLSAR, MAS, PRINCIPALMENTE PORQUE QUANDO VOLTOU DA AMÉRICA, OITICICA ESTÁ DECIDIDO A VIRAR ATOR... CURIOSAMENTE, NO FIM DE SUA VIDA, HÉLIO QUERIA FAZER TUDO, ENTREVISTAS, TEXTOS, PERFORMANCES, FILMES, MENOS ARTES PLASTICAS ???  OUTRO DADO INTERESSANTE É QUE NO SET DAS FOTOS, NENHUM DOS DOIS ZÉ CONHECIA, NEM SABIA QUEM ERA AQUELE HOMEM PÁSSARO...,AQUELE ESTRANHO PERSONAGEM AINDA MAIS LOUCO QUE ELES !!!
PARA PIORAR AINDA MAIS AS COISAS, NA HORA EM QUE ÍAMOS COMEÇAR A FOTOGRAFAR & ESTÁVAMOS FUMANDO AQUELE PODEROSO BASEADO, DE UM LEGÍTIMO MANGA ROSA, VINDO DA BAHIA... APARECEU A POLÍCIA !!! MAS, ELES NÃO ESTAVAM NO NOSSO ENCALÇO, MAS SIM DE UM FORAGIDO TRAVESTI QUE, SEGUNDO AS INFORMAÇÕES QUE TINHAM, COSTUMAVA SE ESCONDER NAS RUÍNAS !!!
ENTRETANTO, COM SUA VOZ GRAVE & DEBOCHADA... HÉLIO NÃO TEVE  O MENOR PROBLEMA EM DESPACHAR OS PMS...
"TRAVESTI ??? AINDA NÃO VIMOS, NENHUM... POR ENQUANTO, AQUI SÓ ESTÃO O ZÉ RAMALHO, SATÃ & O ZÉ DO CAIXÃO !!!
COM A POLÍCIA SAINDO DE FININHO DEMOS INICIO A NOSSA TÃO AGUARDADA SESSÃO DE FOTOGRAFIAS, PASSANDO A DIREÇÃO DOS ATORES, AO MEU QUERIDO COLEGA ZÉ DO CAIXÃO QUE NÃO TEVE A MENOR DIFICULDADE EM IDEALIZAR UMA CENA QUE VIROU A FAMOSA CAPA, ONDE O FABULOSO HÉLIO OITICICA ACABOU SENDO BATIZADO DE "ANJO" PELO DEMÔNIO DA MOÓCA !!!


























FONTE

sábado, 24 de junho de 2017

ESTÃO ROUBANDO O MEU BAIÃO


por  Luciano José

A globalização não é um fenômeno da época atual, mas está nas origens do sistema capitalista. Não há relação de produção capitalista sem algum processo de globalização. Queremos com isso dizer que o forró que atualmente conquista o público brasileiro em massa e se faz presente em várias partes do mundo é de qualidade musical bastante duvidosa. O retrato musical forrozeiro atualmente pintado no Brasil é musiquinha comercial de baixo nível.
Não podemos considerar o forró moderno ou estilizado ou eletrônico como forró porque simplesmente não há qualquer vinculação com os elementos ligados à tradição da música nordestina. O forró universitário merece nosso respeito, pois pretende estabelecer um elo com as raízes da música regional nordestina e dialogar com seus mestres.
Forró moderno é Luiz Gonzaga que ao longo da carreira soube moldar sua sonoridade aos novos tempos e conquistar variados admiradores. Forró moderno é Jackson do Pandeiro que revigorou a tradição com a inclusão de instrumentos elétricos e adicionou ao ritmo do forró a batida do samba, o pulsar do frevo e as várias manifestações folclóricas nordestinas. Moderno é Jacinto Silva que desafiava cantadores com suas divisões ousadas e seu canto sincopado. Moderno é Dominguinhos que, mesmo fazendo incursões em outras sonoridades e estilos, nunca esqueceu a base do forró gonzagueano do pé da serra. Moderno é Clemilda que, junto ao som dos oito baixos de Gerson Filho, reintroduziu temas folclóricos e bem-humorados na música nordestina. Moderno é Marinês que, enveredando pela MPB, pelo carimbó e pela balada romântica, foi capaz de contribuir para o surgimento da versatilidade do canto de Elba Ramalho. Em suma, aquilo que representa a modernidade já está presente no tradicional. Um realimenta o outro, mas um não avacalha nem desfigura o outro.
O forró eletrônico ou estilizado ou moderno não é e nunca será forró. Na época em que surgiu, final dos anos 90, as gravadoras, as emissoras de rádio, os programas de TV, a pirataria e empresários inescrupulosos que visavam aumentar seus faturamentos, se uniram para desqualificar a música nordestina e embrutecer o público na escolha de uma única forma de “compor” e ouvir música. O gosto popular não pode ser o critério para qualquer definição de qualidade artística de um dado produto cultural. Sabemos que há uma indústria cultural capitalista que financia aquilo que deve ser consumido em termos de arte. Respeitamos a democracia, mas não a confundimos com o democratismo que veicula o baixo nível e a ingerência do mercado como figura determinante para estabelecer valor a algo ou forjar juízos de gosto. Pierre Bourdieu, sociólogo francês contemporâneo, já advertia que o juízo de gosto não é resultado de uma decisão individual isolada e inata, mas é uma construção histórica e condicionado a relações de poder surgidas no embate entre diferentes ambientes sociais.
Portanto, não é tão simples como possa parecer alguém dizer que qualquer um “pode ouvir de tudo e escolher o que mais lhe agrada”. Ou então, basta pronunciar a palavra “forró” para que o baixo nível prevaleça. É preciso, mais do que nunca, redescobrir os elementos que compõem a simplicidade da música popular produzida no Nordeste. Como expressava Jacinto Silva, “forró é simplicidade, é poeira, sanfona, zabumba, triângulo”. Nessa hora se faz necessário recorrer ao apelo presente na música “Estão roubando o meu baião” do grande artista popular Zenilton, sanfoneiro ligado as tradições do forró que nunca dispensou a modernidade: “Chame a polícia/Prenda o ladrão/Estão roubando o meu baião/Dizendo que é vanerão//O forró nunca foi música/Não existe vanerão/Na verdade o que existe/É xote, marcha e baião/O baião do pé da serra/Quem trouxe foi Gonzagão//Forrobodó é forró/Festa desorganizada/A cultura nordestina/Está sendo desprezada/Se pagar para tocar/O CD vai para as paradas”. O momento é de recuperar nossas raízes mais autênticas, mesmo que tenhamos de conviver com elementos culturais de pouca legitimidade. A palavra de ordem é válida, mas devemos evitar o discurso genocida ou usar aparatos bélicos para limpar o terreno.

Escritor Luciano José no lançamento de seu livro "Jacinto Silva - As Canções". Palmeira dos Índios, 25 de abril de 2013. Foto Ricardo Silva.

*Este artigo foi publicado no semanário Tribuna do Sertão (Palmeira dos Índios-AL), ano XXI, nº 1007, 19 de junho de 2017.