quinta-feira, 11 de abril de 2013

DISCOTECA BÁSICA

THE ROLLING STONES
Exile on Main St(1972)



(Edição 4, Novembro de 1985) 


Naquele tempo eles já carregavam o título de "A Maior Banda de rock'n'roll do Mundo" como um peso-pesado que exibe seu cinto de campeão. Não havia mais Beatles, não havia mais Jim Morrison, não havia mais Hendrix. A única competição real era o rock operático do Who e o então ascendente Led Zeppelin. E, mesmo assim, ao vivo, os Stones eram imbatíveis - Jagger piruetando pelo palco, comandando um rugido-rock que era afiado e perigoso como o fio de uma navalha. Em disco, passavam por seu melhor período, parindo clássico após clássico - de "Brown Sugar" a "Street Fighting Man", de "Let It Bleed" a "Simpathy for the Devil". Embora o Sr. M. tivesse levado Brian Jones - que, enamorado demais pelas possibilidades "místicas" das drogas, já se mostrava incapaz de produzir um décimo de seu input habitual na banda -, os Stones da virada dos anos 60 para 70 progrediam, artística e popularmente, como uma bola de neve. Agora, sob o comando de Mick Jagger e Keith Richards, mais do que nunca os Stones mereciam o título de "A Maior". 
Com a entrada do lírico Mick Taylor no lugar de Jones, os Stones saíam de uma trilogia de álbuns absolutamente brilhantes - "Beggar's Banquet" (ainda com Brian), "Let It Bleed" e "Stick Fingers" -, mas enfrentavam um novo/velho problema: drogas. Desta vez era Keith quem flertava com a morte, via heroína. Escondera-se numa villa no sul da França, Nellcote, para poder injetar um pouco de sanidade em sua vida. Mas sanidade era difícil de achar numa atmosfera rock e, ao invés dela, Keith acabou encontrando mais rock, e mais heroína. 
Como Keith não saísse de Nellcote para coisa alguma, os Stones mudaram-se para lá para poder gravar seu novo disco, cujo título balançava entre "Eat It" e "Jungle Disease". Chamaram o saxofonista Bobby Keyes, o trompetista Jim Price e os tecladistas Nicky Hopkins, Billy Preston e Dr. John. Ficaram trancados em Nellcote de julho a novembro de 1971. Quando saíram de lá para Hollywood, onde complementaram e mixaram o disco, os Stones traziam nos braços material para preencher três álbuns. 
Acabaram optando por um álbum duplo e por um terceiro título - "Exile on Main Street" - e ofereceram ao mundo o disco mais denso, mais pessoal, mais intrigante e mais controverso de toda a carreira dos Stones. 
Quem ouviu "Exile" em 72 amou ou odiou o disco imediatamente. A maioria odiou, reclamou de "falta de foco", "mixagem lamacenta" e "encheção de lingüiça". Erraram e acertaram. Primeiro, porque tudo isso era intencional - a massa sonora de "Exile" só podia ser penetrada a facão. Os vocais de Jagger foram enterrados mais do que o costume. Os agudos foram saturados. E, segundo, porque a maioria das músicas era uma sucessão de Polaroids rock - images de decadência, dor, perigo, desilusão. E de sobrevivência. 
Acima de tudo, "Exile" era um portrait dos Stones no topo de sua forma - faixas como "Tumbling Dice", "Rocks Off", "Soul Survivor" e "Rip This Joint" eram o testemunho de que, quando os Stones resolviam se reunir num estúdio para fazer rock'n'roll, faziam "O Melhor Rock Õn ÕRoll". Jagger explodia suas tripas em vocais insuperáveis até mesmo por ele. Richards e Taylor trocavam riffs como guerrilheiros na selva. Bill Wyman e Charlie Watts sedimentavam uma construção crazy com uma argamassa indestrutível. 
Após "Exile" tornou-se impossível reunir todos os Stones num mesmo estúdio, ao mesmo tempo. E os álbuns subseqüentes retratavam este insidioso fracionamento. Depois de "Exile", salvo faixas excepcionais, como "Start Me Up" e "Undercover", os Stones eram um arremedo dos Stones. E Exile era seu melhor testamento. E o derradeiro epitáfio. 

José Emilio Rondeau


FONTE: http://rateyourmusic.com/lists/list_view?list_id=133037&show=50&start=0

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